JOGO 32 – O homem proibido x Todos morrem no fim

JOGO 32

O homem proibido,
de Eugênio Giovenardi (Movimento / 2009)
x
Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)

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JUIZ
Pedro Gonzaga
– É natural de Porto Alegre. É saxofonista, escritor e professor de literatura. Tem dois livros de contos publicados, Cidade fechada (2004) e Dois andares: acima! (2007). Atualmente, ataca como cronista no quadro Crônica Falada, na Rádio Ipanema FM, com a Kátia Suman. No futebol, sempre jogava no gol, dado seu porte avantajado.

Tendo feito grandes partidas anteriormente, dois contendentes experimentados se encontram ao sol pálido da tarde setembrina em busca de uma decisão. Apresentarão, por certo, estilos bem diferentes de jogo, e somente o desenrolar dos acontecimentos poderá apontar o vencedor.

Pretendo dizer com isso que, mesmo após ter lido as duas obras, não vejo ainda os gols, os lances polêmicos, as faltas violentas (fair play é para os fracos), as falhas individuais, os escanteios catimbados. Do centro do gramado, com a bola ainda parada em seu círculo, nada se sabe. Há o vento solto e a gana que os uniformes conformam.

De um lado, uma equipe armada com a solidez de um romance aos moldes do século XIX, O homem proibido, de Eugênio Giovenardi, um romance de formação, que por vezes lembra, mormente em seu início – enquanto o protagonista Juliano/Leonardo está no seminário –, livros como O ateneu (nos horrores do internato, não no estilo) e aqueles que revelam os dilemas da carreira eclesiástica imposta pela família (penso em O seminarista, naquilo que de angústia aflige Eugênio). Nesse sentido, é inegável que O homem proibido também se vincula à tradição dos romances de ideias.

Estruturado de maneira tradicional, narrado em primeira pessoa, o romance se desenrola lentamente, nem de perto um demérito, estabelecendo a trajetória de um personagem exemplar do século passado, que experimenta as descobertas e os desafios da vida em um momento histórico capital, momento em que a própria Igreja Católica enfrentava uma de suas mais duras crises. Merecem destaque, a meu ver, os capítulos Paris e Graciela, este último construído com delicadeza e habilidade. Se há um senão, seria que o livro por vezes acaba se aproximando de um tom demasiadamente confessional, fragilizando-se o aspecto narrativo.

Do outro lado está o conhecido cineasta e músico oitentista Carlos Gerbase, apresentando um romance policial de estrutura clássica, Todos morrem no fim, duas histórias de mistério paralelas e que se alimentam dos elementos que agradam em cheio aos leitores mais próximos da vertente noir: violência, mulheres fatais, um detetive desiludido e cínico (o já inesquecível Inspetor Otávio).

Soma-se à estrutura bem elaborada um interessante painel histórico que se desenvolve no plano do passado (a evasão de uma subversiva uruguaia) e a capacidade de Gerbase de manter a tensão e o mistério em torno do estupro da professora Isabel (plano do presente). Há que se louvar ainda a linguagem direta, coloquial sem cair no simplório, e o respeito à inteligência do leitor, o que nem sempre costuma acontecer no gênero policial, em especial nos dias atuais.

O jogo é extremamente disputado. Apesar dos estilos opostos, há uma dinâmica interessantíssima, que torna difícil decidir e mesmo acompanhar o placar para saber quem está na frente.

Apito acionado, sinalizo para o capitão do time comandado por Gerbase para que me alcance a bola. A partida está encerrada. Há ali um 3 a 4 estampado. O placar reflete a qualidade do jogo, fruto de dois times que merecem ser vistos e lidos pelo público do Gauchão de Literatura.

Balanço final: um árbitro deve tentar a imparcialidade, mas os mais antigos devem se lembrar do famoso juiz Aragão, também conhecido como Aramengão. Quero dizer com isso que, como admirador da literatura policial, é provável que tenha me deixado influenciar mais pelo livro do Gerbase. Contudo, não há como negar que tal predileção também tenha me levado a ser mais exigente para com o vencedor.

PLACAR
O homem proibido 3 x 4 Todos morrem no fim

VENCEDOR
Todos morrem no fim
, de Carlos Gerbase

 

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4 respostas para JOGO 32 – O homem proibido x Todos morrem no fim

  1. Magali Lippert disse:

    Ótima arbitragem! Parabéns!

  2. pedrogonzaga disse:

    Obrigado, pessoal. Dois livros muito bons.

  3. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Estava na lista das minhas leituras o “Todos morrem no fim”, mas espero que o leitor, não.

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