JOGO 34 – 1930 – Águas da revolução x Unhas

JOGO 34

1930 – Águas da revolução,
de Juremir Machado da Silva (Record / 2010)
x
Unhas,
de Paulo Wainberg (Leya / 2010)

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JUIZ
Tom
– Cuteleiro e designer gráfico, estudei biblioteconomia na UFRGS e design na ULBRA, não fui ao fim de nenhum dos cursos. Ativo na vidinha de escritor de internet e colaborador de jornais alternativos, fanzines impressos e online, blogs e frequentador de oficinas de literatura desde o final dos 90. Depois de 20 anos rodando por agências e freelando como designer gráfico, hoje sou exclusivamente cuteleiro e trabalho de verdade.

#rastro www.area51.com.br #cutelaria www.tom.art.br #twitter @tom_area51 e-mail tom.area51@gmail.com.

O jogo

Não darei voltas resenhando os livros: já temos ótimas descrições aqui mesmo na internet e recomendo uma visita ao Google para mais detalhes. Estou também presumindo que nossos queridos leitores já conheçam os livros por terem lido os resultados da primeira fase deste campeonato que, com esta nova fórmula de mata-mata, me dá vontade de chamar de torneio.

Muito menos analisarei os livros com a pretensão de corrigir, apontar falhas na estrutura formal ou na construção de personagens. Os dois escritores não são iniciantes e não estariam nesta fase se os livros tivessem carências nestas premissas básicas. Estamos tratando de um jogo entre grandes livros e escritores muito competentes.

Graficamente impecáveis: destaco o bonito trabalho no projeto gráfico de Laura Klemz Guerrero em Unhas com direito a capa em alto relevo imitando azulejos, impressão com tinta UV, a mórbida montagem fotográfica com um pé e uma tesourinha e uma ousada escolha da fonte pro título do livro. O concorrente não comete pecado nenhum. Fotos em sépia com imagens da época apresentando uniformes militares, o Getúlio, muita pompa em cores sóbrias como marrom e preto, sem correr riscos. Para manter-me nas metáforas futebolísticas, diria que 1930 tem um projeto gráfico com uma defesa impecável.

Finalizando essa parte do design gráfico, a aparência de Unhas ganhou mais e mais sentido com o avanço da leitura, com o desenvolvimento da história e do discurso do assassino de aluguel. Aqui o primeiro gol do Unhas. 1 x 0 pelo design gráfico.

Juremir Machado da Silva é um pavilhão da literatura gaúcha e responsável por uma obra de peso, uma biografia com 429 páginas de Getúlio Vargas. Li declarações suas de que escreveu 1930 – Águas da revolução porque havia lacunas na história e foi atrás desta revelação prometida que mergulhei. Me deparei com diálogos, encontros e textos que são puramente ficção na boca de personagens reais, o que me deu a sensação de nadar contra uma correnteza que não se sustenta nem como jornalismo nem como história. Foi difícil ler os diálogos desses personagens lembrando que talvez eles jamais tivessem acontecido, ou que Getúlio, Oswaldo Aranha ou João Neves da Fontoura teriam escolhido esta ou aquela palavra para conversar sobre este ou aquele assunto com seus aliados ou inimigos políticos.

Gabriel d’Ávila Flores, que deveria ser um dos pilares do livro como testemunha ocular da história, é na verdade só uma testemunha, lutando, engrossando colunas, sendo bucha de canhão e admirando ou não este ou aquele político. A inclusão de Gabriel não acrescenta nada de novo à história da revolução de 1930. Por outro lado, a ficção do livro também perde força por conta dos fatos históricos e da biografia do Gabriel – Truman Capote já fez isto com A sangue frio, João do Rio e Euclides da Cunha também para pegarmos exemplos em língua portuguesa. A jogada ensaiada falha miseravelmente.

Mais um fato desconfortável na experiência da leitura é o suave pedantismo e onisciência com que alguns parágrafos são encerrados com afirmações do tipo “fulano fará isto” ou “tal coisa acontecerá de tal forma”. Alguns comentaristas esportivos poderiam dizer que Juremir ensinou seu time a jogar de salto alto com perfeição, mas o campo é de grama, barro e areão, e não uma passarela. O time inteiro tropeça, afunda e se esfola desfilando um garbo que não combina com a várzea do Gauchão. Este é um campeonato que está mais pra peleja do que pra amistoso. 1930 não marcará esse gol e deixará a impressão de que nem foi pela retranca, mas que acreditava que ganharia o jogo simplesmente por se apresentar em campo com seu belo uniforme alinhado.

Confesso que não conhecia Paulo Wainberg e precisei lidar com a superação de alguns preconceitos logo no começo. Descubro na orelha da contracapa que é advogado e na página cinco me deparo com uma dedicatória poética falando em paternidade e a condição de avô. O livro abre apresentando a vítima amarrada, tentando entender o que está acontecendo e sendo submetida ao discurso de um assassino com transtorno obsessivo compulsivo.

O fato é que o livro demora mesmo pra engrenar, não sei se por conta do meu preconceito ou da própria estrutura escolhida pelo escritor, com um início confuso, chato, tanto no que se refere à escolha das palavras quanto a narrativa até o quinto capítulo. Esta rosmelescência não dura muito, com capítulos curtos, a voz e as considerações do Unhas (pseudônimo do personagem central) ganham força e me peguei rindo e querendo decorar alguns trechos do monólogo para dizer por aí.

Cheguei a pensar que Wainberg perderia a mão. Mas, pelo contrário, a voz do Unhas fica cada vez mais consistente e antes da metade do livro estamos totalmente enredados. Fico na expectativa de saber mais sobre cada um dos personagens, sobre as considerações do Unhas, sobre os 10 mandamentos, sobre Moisés, sobre a frieza e a crueldade da alma feminina e sobre a decadência moral de alguém entregue a um amor obsessivo.

Nem a história policial que Unhas lê e que é contada entre um capítulo e outro chega a incomodar. Nomes americanos e clichês de histórias policiais usados nesses capítulos também não incomodam, pois eu queria, sim, era ler rápido pra saber mais da Taiane, da Elisa e do Unhas.

Depois das experiências com Rubem Fonseca, outro preconceito meu, achei que nada mais leria de estimulante em termos de histórias policiais. Wainberg é um aforista da melhor estirpe e brinca cheio de delícia sobre tabus, religião e hipocrisia humana.

Uma das grandes experiências que tive com Unhas foi a epifania provocada pelo capítulo 10: vi H. L. Mencken, pai de todo o cinismo irrefutável com o seu Livro dos insultos de pé na arquibancada, histérico e gritando UNHAS! UNHAS! E Nietzsche ao seu lado gargalhando e dizendo “eu avisei”. Precisei inventar um impedimento pro juiz poder respirar. Até aí o despretensioso Unhas já tinha feito outro gol e desfilava com galhardia frente a um adversário embasbacado e paralisado pela própria pompa e circunstância. 2 x 0 pro Unhas.

Bem antes do apito inicial, aos olhos deste árbitro, Juremir parecia ter o jogo nas mãos. Aos 15 minutos do segundo tempo, acontece um evento que não podemos nem chamar de uma virada. Com a bola rolando, nos damos conta de que a história pode até ser feita de versões, mas a verdade é que as coisas acontecem pontuadas por fatos. Assim como no futebol só o gol define qual time é o vencedor. Unhas, como obra literária, acachapa a frieza e a falta de ousadia de 1930 marcando mais um e desenhando uma goleada.

Como se trata de um Gauchão, o livro de Wainberg, na modesta opinião deste ferreiro, tem mais importância para a história da literatura do RS do que o do seu oponente. Juremir Machado da Silva é um emérito e douto polemista, um escritor respeitado e embasado pela academia. Não comete erros nem fraquezas na sua construção, mas não apresenta fruição, não dá vontade de gritar, não provoca gargalhadas, choro, dor, tristeza ou alegria. Apresenta um lustroso, mas tedioso desfile com um esquema técnico brilhante, porém raso. Todavia, Paulo Wainberg entra em campo com galhardia, pouco se importa com o que já está estabelecido e se joga na partida quase com uma motivação kamikaze, com inconsequência e cheio de ousadia. No final do jogo, o árbitro, arrebatado, tira sua camiseta de imparcialidade e está louco pra dar um abraço no técnico e pedir uma camiseta do time. Unhas tem um novo sócio e o jogo termina com um lindo 4 x 0.

A torcida, entre a incredulidade e o arrebatamento total, festeja ensandecida e solta rojões e foguetes. Numa última manobra de truculência, o goleiro de 1930 se joga no chão, ferindo o próprio supercílio e tentando desmerecer a vitória do temerário Unhas. O técnico, envergonhado, se retira do campo sem atender a imprensa.

PLACAR
1930 – Águas da revolução 0 x 4 Unhas

VENCEDOR
Unhas
, de Paulo Wainberg

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5 respostas para JOGO 34 – 1930 – Águas da revolução x Unhas

  1. Pena Cabreira disse:

    Parabéns Tom, resenhei o 1930 na primeira fase e concordo com os teus comentários. Lerei Unhas. Abraço, Pena Cabreira.

    • Parabens ao Juremir pelo belo romance que escreveu. Essa questão de disputar-se um campeonato obriga o Árbitro a estabelecer comparações e escolher um vencedor. Neste caso, fui o escolhido, agradecendo ao Tom, ilustre Juiz, pela leitura que fez de Unhas. Nem por isto o livro do Juremir merece menos consideração, ao contrário, deve ser lido e apreciado, como um belo trabalho.

  2. Luiz Paulo Faccioli disse:

    Que jogaço! Parabéns ao vencedor e um grande aplauso ao árbitro, que teve uma atuação das mais vibrantes!

  3. Tô na fila pra ler Unhas, só pra ver quantos gols ele faria no MEU time, se 6 ou 7. =)

    Não tenho o hábito de ler livros históricos, por preconceito, preguiça, e pelo tamanho da fila de coisas fictícias que dão a impressão de serem bem mais interessantes, lá na minha estante. Como o livro do Juremir parece NÃO ser, de fato e/ou de direito, um livro exatamente histórico, acho que ele vai pra minha fila também.

  4. Muito interessante o site de vocês! Um amigo viu esse post, comentou comigo e vim bisbilhotar também.
    Só preciso fazer uma observação: a capa do Unhas foi elaborada pelo estúdio Retina 78 e não por mim.
    Fiz o projeto gráfico do miolo e a diagramação, não a capa. Seria, portanto, injusto ter esse crédito 😉
    Parabéns pelo site!

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