JOGO 35 – Sinuca embaixo d’água x Os Getka

JOGO 35

Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)
x
Os Getka,
de Letícia Wierzchowski (Record / 2010)

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JUÍZA
Cínthya Verri
– Nasceu em Constantina (RS), em 1980. É blogueira, cantora, artista plástica e comunicadora. Por excesso de alternativas, escolheu ser médica, residência em psiquiatria. Conduz a Clínica Verri, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Articula o projeto Cineterapia, no Sindibancários, em que recebe um convidado para discutir clássicos da saúde mental. Coordena o Curso de Instrução do Acompanhante Terapêutico. É autora dos blogs Boucheville e Matando Carpinejar, colunista da Rádio Ipanema FM e apresenta o programa #cinthyaverriexplica na Rádio Elétrica. [Constantina], sua estreia na poesia, está no prelo pelo selo Edith, São Paulo. Colabora com artigos no Caderno Cultura do Jornal Zero Hora e participou da equipe de ilustradores do site Vida Breve. [Acompanhe em http://www.cinthyaverri.com.br]. Siga no twitter @cinthyaverri. Contate em cinthyaverri@clinicaverri.com.br.

A vitória da estética sobre o enredo

Em campo: Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon versus Os Getka, de Letícia Wierzchowski.

O jogo

A disputa entre Os Getka e Sinuca embaixo d’água foi acirrada. Não porque se parecessem, mas justamente por terem poucos pontos de aproximação. São dois romances curtos, na verdade duas novelas, escritos por mulheres gaúchas. E logo aí já se terminam as semelhanças.

Na apresentação dos volumes, Os Getka sai na frente. A família está reunida numa embalagem especial. A imagem da capa confere o tom harmônico, com um menino e uma menina, o casal dentro da piscina, sem que possamos ver seus rostos. O sol acende a cor de suas roupas de banho e quase pude sentir o cheiro do verão da infância. As fontes escolhidas para o título e o nome da autora estão muito bem equilibradas. Abri o livro e cheirei as páginas. Fui atrás de sentir o verão da infância.

Foi muito dessa atmosfera que encontrei no recheio. Satisfazer uma expectativa faz companhia. O encontro ofereceu a nítida sensação de que minha memória estava sendo explicada, como neste trecho:

Ainda posso enxergar a ruazinha de pedras em seus mínimos detalhes… Uma morneza boa se emanava das lajotas, aquecendo meus pés descalços.
(…) Lembro apenas que chegamos em frente à casa azul, que nos esperava sentada sobre os pilotis como um imenso animal obediente, e, quando eu ia abrir o portão, Lylia puxou-me pelo braço e deu-me um beijo pegajoso de maresia
.

Sinuca embaixo d’água traz uma capa que achei rara, estranha mesmo, com cara de pouco profissionalismo. Cheguei a conferir a editora e pensei:

— Mas é da Companhia das Letras!

Então me dei conta de que salvar a primeira impressão de um livro pelo calibre da editora não é um bom sinal. A fonte do título não combinava, nem sua cor. A arte da capa só depois de terminar o livro é que fez sentido: as bolas de sinuca um pouco fora de foco assemelham-se a faróis de carros e também a luzes de bar, de boate, ou a nosso desfoco quando bebemos:

— Ah, entendi.

Mas eu não gosto desses trocadilhos artísticos. Parecem querer gerar intencional afinidade.

Chegamos ao estilo. Letícia conseguiu encaixar 19 reticências nas primeiras 27 páginas. Reticências é quando ficamos sem ter o que dizer e queremos fazer de conta que tem muito mais a ser dito. Ou seja, uma espécie de cilada. Ao menos na minha opinião, essa é a bola fora da obra.

Os Getka chega com sua alegria de verão para encontrar os amigos. A maresia envolve a narrativa romântica e muito bem costurada. Em nenhum momento, acordo do sonho. Letícia, com a prosa macia, trouxe momentos de paz e foi hábil na geração de um mundo paralelo. No sobrado da família de Andrzej, fui convidada a conhecer o despertar do amor juvenil, a cultura da família, seus hábitos, seus fantasmas e sua dor. Os Getka deslumbra pela inocência e, especialmente, pela fragilidade emocional.

Um autêntico gol de placa: a sutileza do sentimento.

O protagonista cresce e se torna um escritor cuja vida amorosa desbota com o tempo. Uma vida que se prova pálida, que ficou muito aquém das promessas do verão.

Carol, ao contrário, derrama firmeza nas frases curtas e bem pontuadas. Ela mostra a que veio. Traz capítulos com o nome dos personagens, cada um falando de seu ponto de vista. Mas como todo estilista, Carol exagera no drama, pesa a mão, talvez porque o pacote de sal fosse novo.

Por exemplo, descreve a mãe tricotando uma manta vermelha para a filha ausente:

Sentada na poltrona, de costas para mim, minha mãe ainda tricotava sem rádio ou tevê, sofrendo apenas, como se desse cada ponto na carne. E para quem era? Eu não usava lã, e não tinha mais touca possível, que a Antônia gostava de ter em todas as cores, não tinha mais manta listrada, e muito menos se imaginar fazendo roupa para neto. Ela não se virou na minha direção. Tenho dúvida se ao menos olhava para o que estava fazendo, porque a cabeça parecia levantada demais, como se o que interessasse fossem os desenhos dos pratos de porcelana, presos como quadros na parede a sua frente. Pelo braço direito da poltrona, descia a parte já pronta da roupa, em lã vermelha, quase tocando o piso.

Precisei de muito líquido depois disso. Sim, porque uma cena assim me faz lembrar que estou lendo um livro ao invés de conhecendo a história de uma gente! Quero ser íntima de Bernardo e de seus patins e sentir o mesmo que ele quando desaprendo a andar. Essa descrição, aliás, é primorosa:

É como tirar os rollers depois de andar um bocado e sentir que os pés e o chão não se entendem mais.

Outro golaço é o irmão Camilo indo buscar cigarros no quarto da irmã recém perdida:

Porra, cigarros. Nunca precisei tanto dos cigarros acendidos um no outro, de ver a brasa do cigarro no escuro absoluto do quarto. Mas onde arrumar se o Polaco está fechado e não há carro para ir até o posto de gasolina, e se dois quilômetros a pé até o posto seria uma caminhada sobre espinhos (…). Procuro o cinzeiro, mas tudo já foi fumado até a última tragada imaginável. (…) Não seria um problema fumar os cigarros light da Antônia, ou mesmo os que fossem de canela ou cereja, ou mais compridos e mais finos, ou um charuto de celebrar coisas. Saio do quarto e estou de frente para o dela. Abro a porta e estou lá dentro. (…) Reviro as gavetas da cômoda, sem olhar para os livros, sem ler os papéis, sem ver que ali está Antônia (…). Encontro cinco cigarros vagabundos.

Os Getka não deve nada para ninguém, Letícia é grande contadora de histórias. Mas, é assim que Sinuca embaixo d’água vence por 2 x 1: graças ao estilismo contundente e admirável de Carol.

___________
NA – Confesso:
— Que tarefa árdua inventar uma disputa entre essas histórias memoráveis!

PLACAR
Sinuca embaixo d’água 2 x 1 Os Getka

VENCEDOR
Sinuca embaixo d’água
, de Carol Bensimon

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