JOGO 36 – O centésimo em Roma x Sob o céu de agosto

JOGO 36

O centésimo em Roma,
de Max Mallmann (Rocco / 2010)
x
Sob o céu de agosto,
de Gustavo Machado (Dublinense / 2010)

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JUIZ
V
itor Necchi – Jornalista (UFRGS) e mestre em Comunicação Social (PUCRS). É professor e coordenador do curso de Jornalismo da Famecos-PUCRS. Foi repórter, chefe de reportagem e editor do jornal Zero Hora. Implantou e coordenou o curso de Realização Audiovisual da Unisinos, onde também lecionou jornalismo. Editou a revista Norte – livros, artes e ideias.

Aquecimento

Costumo evitar o uso da primeira pessoa em meus textos, o que, obviamente, não significa que sejam menos autorais. Neste, abuso do recurso – pelo menos no aquecimento – para revelar um dilema: como apitar partida de concurso literário que emula campeonato de futebol se, mais do que desconhecer as regras, não suporto esse esporte?

Resolvi entrar em campo porque até posso ignorar a totalidade dos protocolos que rege aquele corre-corre no gramado, mas o fenômeno é tão ostensivo que desenvolvi alguma familiaridade com ele. Quase nada, mas o suficiente para eu cometer algumas metáforas por uma causa maior: literatura.

Enfim, coube a mim arbitrar a derradeira partida da segunda fase do Gauchão de Literatura 2011, o que me permite uma espécie de desforra retroativa a amigos da infância. Embora péssimo jogador, eu acabava chamado para os jogos no campinho em frente à minha casa apenas porque era o dono da bola.

Aposto que nenhum deles virou juiz.

O jogo

Uniforme não garante vitória, mas nem por isso são detalhes esquecidos pelos torcedores. Portanto, para dar início à disputa entre O centésimo em Roma, de Max Mallmann (1968), e Sob o céu de agosto, de Gustavo Machado (1970), entram em cena – ou melhor, no gramado – as capas.

Se nos jogos a roupagem dos atletas é irrelevante para o resultado, no mercado editorial a regra difere. Capa não garante qualidade, mas ajuda a vender. Mais do que isso, confere à obra predicados estéticos e subjetivos perceptíveis a leitores que valorizam atributos materiais de um livro. Uma capa caprichada ainda revela apuro, esmero e dedicação da editora para com seus produtos.

Samir Machado de Machado, capista de Sob o céu de agosto, leva esta questão tão a sério que criou um blog (sobrecapas.blogspot.com) para tratar do tema. A capacidade reflexiva ecoa em seus trabalhos, que costumam se destacar pelo acerto, como é o caso da composição feita a partir de fotografia de Marcelo Acosta para o romance aqui analisado.

A capa de O centésimo em Roma, o primeiro dos vários atributos do livrão que ultrapassa as quatro centenas de páginas, é criação do estúdio Retina78. Entretanto, embora bela e bem realizada, não rompe totalmente com referências visuais de obras de inspiração histórica dedicadas à Roma Antiga. Sob o céu de agosto, portanto, abre o placar pelo apuro e pela originalidade.

Mais do que amenidades, as rodinhas de torcedores se dedicam a discutir o que importa: o desempenho dos atletas, dos times. Sob o céu de agosto conta a história de Otto, um pintor que habita uma cidade que não é nomeada, mas a cartografia e as referências apresentadas sugerem Porto Alegre. Meio fracassado, meio acomodado, meio envolvido com a adolescente que mora no mesmo edifício, meio sem dinheiro, ele tumultua essa vidinha mediana ao se meter numa enrascada para proteger Sophia, sua aluna nas aulas que encarou para arrumar um pouco de grana.

A mocinha vivia sob a proteção de um cara mais velho, poderoso e escroto. Enciumado e desconfiado, ele dava uns sopapos na mulher e depois se arrependia, claro. Ela arquiteta uma fuga, pede apoio para Otto e aí começa uma trama… policial? Tem fortões mal encarados, tem perseguição nas ruas da cidade, tem briga, tem fuga, tem morte, tem sangue, tem delegado. Os elementos estão lá, mas não convencem. Para evitar tantas alusões futebolísticas, pode-se dizer que a história abatuma. Não cresce, não enche os olhos, não abre o apetite. A tentativa de humor não emplaca. O mesmo se verifica na recorrente menção depreciativa ao governo de esquerda da sociedade em que tudo se passa. Se a ideia era criticar, a bola bateu na tabela e não caiu na cesta – ops, é futebol –, restando uma caricatura que deforma e exagera, como toda caricatura faz, mas não convence.

Na contramão da sensaboria da história de Gustavo Machado, o estádio do Gauchão de Literatura treme mais do que o Coliseu em dia de matança com a entrada imponente de O centésimo em Roma e seus centuriões, pretorianos, legionários, gladiadores, senadores, césares e todo tipo de personagens que Max Mallmann recria com fôlego e minúcia em um espaço e um tempo distantes um par de milênios.

A narrativa se desvela em dois planos: um em terceira pessoa, que conta a história em tempo presente, e outro em primeira pessoa, por meio da voz de Quintus Trebellius Nepos que, meio século depois do ocorrido, registra suas memórias dos fatos protagonizados pelo centurião Publius Desiderius Dolens.

Durante anos, Dolens matou bárbaros germanos para defender as fronteiras do império e ganhou a alcunha de Carniceiro de Bonna. Ele retorna à caótica, suja e corrupta Roma de 68 d.C. a fim de desempenhar uma função bem abaixo do que ambicionava. Enquanto ele persegue um carguinho melhor, senadores são mortos, imperadores caem, alcovas entram em ebulição, subornos movimentam moedas, as ruas irrigam o caos – enfim, a primeira grande metrópole dava uma mostra do que seriam as metrópoles do Ocidente, todas herdeiras dos romanos. A história de Mallmann empolga, prende, anima. Golaço! Daqueles que o leitor não cansará de perpetuar, mantendo vivas a pujança e a decadência de Roma.

Essa sociedade em ponto de fervura se concretiza a partir de um texto muito bem estruturado. As frases são elaboradas, o vocabulário rompe a mordaça da trivialidade e a pesquisa empreendida pelo autor pode ser classificada apenas com adjetivos superlativos. Ou seja, a torcida mal teve chance de recobrar fôlego e um novo urro explode nas arquibancadas para celebrar outro gol. Gol de letra.

Por último, o começo. No prólogo de seu romance, Mallmann conta que encontrou um exemplar da tradução catalã do livro Vita dolentis, de Nepos, em uma livraria de Porto Alegre que, de fato, existe, a Nova Roma. Ele sugere que sua notável empreitada literária seria decorrência da descoberta do “carcomido volume de capa amarela”, o qual traduziu e, “para costurar um fragmento e outro”, se permitiu fantasiar um pouco. Isso remete a outros livros que emanam de um acaso, de um achado, de um manuscrito. Umberto Eco e O nome da Rosa, Richard Zimler e O último cabalista de Lisboa, Borges… Pouco importa o que aconteceu, se de fato os escritores foram afortunados, se estão contando uma mentirinha – assim mesmo, no diminutivo. Se a noção de verdade acaba sendo fruto de uma narrativa, com isso, perto de soar o derradeiro apito, O centésimo em Roma movimenta mais uma vez o placar, por desde o início prender – e não largar – o leitor.

PLACAR
O centésimo em Roma 3 x 1 Sob o céu de agosto

VENCEDOR
O centésimo em Roma, de Max Mallmann

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2 respostas para JOGO 36 – O centésimo em Roma x Sob o céu de agosto

  1. Paula disse:

    Faltou argumento, teoria e embasamento na avaliação de “Sob o céu de agosto”. Além da visível diferença de gêneros dos dois romances em questão, o que deveria dificultar o julgamento, não se pode avaliar simplesmente por não ter gostado, sem uma explicação que se sustente. Infelizmente, foi o que o juiz deste disputa fez. Lamentável.

    • Marcos disse:

      Me parece que não ter gostado de um livro é o principal motivo para se dar vitória ao outro. Ou então vamos cair no mimimi acadêmico de que existe um checklist de critérios objetivos a serem atingidos que automaticamente elevam uma obra, como uma receita de bolo do Bom Livro, e fazer de conta que toda avaliação não é, em último caso, baseada em critérios subjetivos – o gosto pessoal do autor.

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