JOGO 37 – Os espiões x A misteriosa morte de Miguela de Alcazar

JOGO 37

Os espiões,
de Luis Fernando Verissimo (Objetiva / 2009)
x
A misteriosa morte de Miguela de Alcazar,
de Lourenço Cazarré (Bertrand Brasil / 2009)

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JUIZ
Bolívar Torres – Nasceu em Porto Alegre, em 1981, mas mora atualmente no Rio de Janeiro. Foi repórter e editor do Caderno B, do Jornal do Brasil, e edita o site Portal Literal. Participou da antologia de contos Oficina 33, organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Em 2011, lançou pela Oficina Raquel seu primeiro livro, intitulado O cronista.

O jogo

Como juiz de primeira viagem, confesso sentir um pouco de insegurança antes do apito inicial. Nada mais difícil do que jogar um livro contra o outro. Tenho consciência de que meu julgamento poderá ter base em critérios puramente pessoais. Tentarei adotar regras iguais para os dois lados, mas já peço desculpas de antemão aos concorrentes e às suas respectivas torcidas em caso de lambança – não se furtem, por favor, em gritar “Ladrão! Ladrão!” em meio ao jogo. Só espero, de todo o coração, que a comissão de arbitragem não me expulse do quadro da FIFA ao fim do campeonato.

A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, de Lourenço Cazarré, contra Os espiões, de Luis Fernando Verissimo. Dois clubes rodados e premiados. Dois times com propostas teoricamente parecidas – literatura metapolicial com rompantes rocambolescos, escrita relaxada e sem complexos, registros de mundos profissionais específicos (o ritmo frenético das redações, no início do livro de Cazarré, e a monotonia dos escritórios de edição, no de Verissimo). Além de tudo, ambos apresentam ideias promissoras (um editor que reencontra o foco em sua vida ao tropeçar no quebra-cabeça de uma escritora misteriosa, e um jornalista obrigado a investigar um assassinato dentro de um congresso de autores de livros policiais).

A princípio, tudo apontava para um jogo equilibrado. Mas, assim como nos gramados, o talento ainda faz a diferença na literatura, tornando nossa partida desigual.

Logo na primeira página, destoa a qualidade das duas equipes. LFV precisa de poucas linhas para nos conectar com o mundo anódino de seu protagonista. Mergulhamos de cabeça na vida sem expectativas do narrador e, antes mesmo de nos perguntarmos por que um sujeito tão inexpressivo nos interessaria, já estamos sofrendo como ele, bocejando como ele, entediados como ele. Estamos contaminados pela melancolia e autossuficiência de sua narração, digna do mais nonchalant anti-herói machadiano ou grahamgreeniano.

Cazarré, por outro lado, já começa tropeçando na bola. Com uma prosa autoexplicativa, torna o seu jogo tedioso. Antes mesmo de se organizar em campo, precisa explicar, em alto e bom tom, o que o seu livro será. Como bula de remédio, sai logo enumerando modo de usar, indicações e contraindicações, entregando tudo de bandeja ao leitor. Ok, vamos admitir que se trate de uma artimanha cômica, second degré, uma tentativa de distanciamento crítico, desconstrução, que seja… O problema é que não funciona. Seu falso manual de instruções chega a ser pueril. Não sei se lembram daquele conto de Rubem Fonseca (Lúcia McCartney), em que a personagem ridiculariza o intelecto do namorado depois dele escrever “uma carta que começava dizendo: espero que estas mal traçadas linhas,  etc.”. Pois, como o namorado de Lúcia McCartney, o narrador de Cazarré já sai mandando um “nestas mal traçadas linhas” logo na introdução.

Pode-se até culpar o nervosismo de início de partida, mas a performance não melhora com o tempo. Sabe aquele palestrante que não confia no próprio taco e precisa a todo momento explicar à plateia o que está querendo dizer? O autor chega a justificar por A mais B (e dessa vez sem ironia alguma) o uso da palavra “presunto”, como se se tratasse de um termo obscuro do jornalismo. Depois da datenização da imprensa mundial, existe alguém que ainda não saiba o que é um “presunto”? Cazarré se esforça demais em tentar chamar a nossa atenção, certificar-se de que entendemos o recado, mesmo quando se trata de uma obviedade ululante. Para piorar, o tom didático vem sempre acompanhado por observações dignas de um estudante de sétima série – aquilo que a orelha do livro chama de “impagáveis reflexões filosóficas”. Um exemplo? “Eu amo meu país do jeito que ele é. Tem um pouquinho de privilégio para os ricos? Tem. Tem um pouquinho de discriminação contra os pobres? Tem. Mas, no fundo, no fundo mesmo, esta é uma nação verdadeiramente democrática”. Gol contra.

O domínio de Os espiões é massacrante. Os primeiros minutos dão a impressão de um jogo entre um grande clube da capital, com atletas experientes e bem posicionados, e uma equipe semiamadora do interior do Estado, cujos jogadores correm afobadamente tentando mostrar serviço (fato recorrente em campeonatos regionais). Em meio ao “chocolate”, no entanto, A misteriosa… consegue um gol espírita graças ao seu fardamento. Não por causa da capa em si (as duas me parecem aceitáveis, embora, como bom idiota plástico, eu seja obrigado a admitir minha total ignorância nesse domínio), e sim pelo formato físico. Não me sinto à vontade segurando o livro de LFV, esse monstro disforme de 15 x 23,4 cm. Por outro lado, acho o clássico 14 x 21 de A misteriosa… bastante confortável. Podem chamar isso de excentricidade de juiz (já ouço os “FDP! FDP!” ecoando pelo estádio), mas a parte gráfica de um livro sempre me interessou muito menos do que o seu formato. Juro que até as aberrações gráficas da Martin Claret não me incomodam.

Agora voltemos às quatro linhas, ou, no nosso caso, à literatura. Lendo o nono romance de LFV, não pude deixar de pensar em Manhattan Murder Mistery, um dos bons filmes de Woody Allen dos anos 90. Trata-se de um divisor de águas na carreira de Allen, que depois de mais de 20 anos dedicando-se a longas “sérios”, resolveu voltar à comédia sem complexos. Apesar da aparente despretensão, contudo, o filme continua a explorar as velhas obsessões de Allen, com tanta ou mais profundidade do que seus filmes “sérios”. É assim: um casal recém-passado da meia-idade enfrenta o esgotamento e o tédio da vida conjugal até o momento que a sua vizinha de prédio morre de um enfarto. Eles começam a especular sobre a morte, chegando ao ponto de suspeitar de que a vizinha teria sido, na verdade, assassinada por seu marido. Como detetives diletantes, tentam investigar o caso, o que traz às suas pacatas vidas burguesas a emoção e o perigo de um enredo de filme noir (lembro agora de uma frase genial do filme: “Adrenalin is leaking out of my ears!”) . Mas o que no começo parecia ser uma especulação fantasiosa, um artifício para dar um mínimo de intensidade a uma rotina sem brilho (outra memorable quote: “Jesus, save a little craziness for menopause!”), começa a ganhar indícios reais, e o vizinho se revela um verdadeiro homicida. No fim, tudo termina com o simbolismo um tanto pesado de um tiroteio em meio a espelhos – referência óbvia à cena clássica de A dama de Shangai.

As semelhanças com Os espiões são enormes. Em primeiro lugar, LFV usa o mesmo tom aparentemente despretensioso da comédia para tratar, com profundidade, de temas que lhe são caros. Em seguida, faz uso, ele também, de uma referência das mais óbvias – o labirinto mitológico de Teseu e o fio de Ariadne. O que muda aqui, contudo, é o propulsor da aventura: ela não parte da suspeita de um crime (pelo menos, não de início), e sim dos originais enviados por Ariadne, uma dona de casa de uma cidade chamada Frondosa. O editor é progressivamente seduzido pela bizarrice do texto (que envolve incesto, ameaças de brutalidade e digressões místico-esotéricas) e pelas origens misteriosas de sua autora. Seria Frondosa um lugar real? Seria a história autobiográfica? As perguntas o tiram pouco a pouco da monotonia. Aliás, vale registrar aqui o inegável talento de LFV em dar ao texto dentro do texto (os cinco capítulos escritos pela autora em questão) um tom absolutamente peculiar, que destoa por absoluto do mundo vazio e sem emoções do narrador. Improvável cruzamento entre Clarice Lispector e Zíbia Gasparetto, os manuscritos de Frondosa intrigariam, de fato, qualquer editor, já que é muito difícil dizer se são geniais ou horríveis (no fim, se revelam… ah, deixa pra lá!).

À medida que novas partes do manuscrito vão chegando, os amigos de bar do editor (um grupo de bêbados tão amargurados quanto ele) começam a especular sobre a autora e sua cidade, usando como base algumas pistas espalhadas pelo texto. É aí que começa o ponto alto de Os espiões. A construção de Frondosa a partir da fantasia de seus personagens é deliciosa. A primeira parte do livro é um retrato comovente desses losers contemporâneos, que tentam projetar seus desejos e idealizações numa típica cidade do, digamos, “Rio Grande do Sul profundo”. Aliás, há toda uma arte do nome em LFV (isso daria uma boa dissertação de mestrado…), e que dá a esse processo uma graça especial. Pode parecer uma observação boba, mas não é. LFV tem o dom de criar um imaginário potente em cima da sonoridade de cada nome: Joel Dublin, Ivona Gabor, Aldo Galotto (de onde ele tira essas ideias?).

A Frondosa de LFV vira uma fantasia colaborativa, construída pela soma de fetiches dos frequentadores neurastênicos do bar do Espanhol. Mas como na Tlön borgiana, o imaginário coletivo vai se fundindo aos poucos com a realidade – ou, pelo menos, com a “noção de realidade” (“O mundo é Frondosa!”, poderia escrever LFV). É o derradeiro jogo de espelhos de Manhattan Murder Mistery, o ponto em que a imagem real não pode mais ser distinguida de seu reflexo. A cidade interiorana vira uma wishful thinking – e, LFV, aquele falso moralista que sopra em seu ouvido: “Muito cuidado com o que deseja, mas não deixe de desejar”. As extravagantes especulações sobre os textos de Ariadne produzem, no espírito desiludido daqueles que entram em contato com eles, uma espécie de encantamento do mundo. É o poder da imaginação, da criação, que encontra o contraponto no pragmatismo econômico de Marcito, dono da editora, e em Martelli, o empresário inescrupuloso de Frondosa, personagens símbolos de uma era onde a ânsia por lucro e acumulação de capital engoliu qualquer capacidade de transcendência.

Nesse sentido, o personagem do professor Fortuna, com sua erudição de mentirinha, suas frases de efeito improcedentes (a boutade pela boutade, o efeito pelo efeito), é o que melhor representa o espírito do romance – a filosofia charlatanesca do personagem é, no fundo, mais sedutora do que qualquer cultura enciclopédica. Aliás, mesmo sem nunca ter dado uma aula em sua vida, Fortuna continua sendo chamado de “professor” por sua banda de bêbados. Quando Fortuna entra na roda, a fantasia sempre dá as cartas. Já ensinava John Ford: se a lenda supera os fatos, imprima-se a lenda.

(As bandeiras estão tremulando, tremulando. O estádio inteiro ouvindo o seu rádio de pilha e comendo suas bergamotas. Momento de tocar aquela vinhetinha com trompetes – tan-ta-ran-ta-ran – e do locutor da rádio local anunciar tempo e placar: “Gauchão de Literatura, 20 minutos do segundo tempo, vai dando Os espiões: QUATRO; A misteriosa morte…: UM!”)

Então já é goleada, e eu vou explicar por quê. O que faz a força de Os espiões surge como fraqueza em A misteriosa morte…. Tirando a ideia inicial, aliás, fica difícil destacar algum ponto forte do livro. Para começar, o estilo de Cazarré tem sérios problemas. Sei que é desonesto pinçar frases fora do contexto, mas não pude evitar esta aqui. Julguem vocês mesmos: “Terminada a chuva, o solzão brilhava lá em cima”. (Sério, “solzão”? Pode isso, Arnaldo?). Já mencionei aqui a arte do nome em LFV e com que sutileza o escritor cria em seu livro diálogos com outros autores (John Le Carré, Graham Greene e até o Verissimo pai de Incidente em Antares). Pois bem, Cazarré faz exatamente o contrário: sua representação dos mestres da literatura policial se resume a uma interminável galeria de caricaturas forçadas. Dirá sua torcida que a caricatura não constitui, necessariamente, um defeito em si. E eu terei de concordar – de fato, não constitui. Mas, para que tenha interesse, a caricatura precisa ser usada com um mínimo de graça, inteligência e múltiplas camadas. Aqui, a brincadeira com as figuras proeminentes da literatura policial – e com o próprio gênero em si – é pobre e simplista, vai direto no lugar-comum. Depois que surgem uma Águeda Christine e um Sim Et Non, fica impossível não se beliscar: peraí, virou Casseta e Planeta?

Para desenvolver melhor a comparação, vale fazer uma pequena reflexão sobre humorismo, traço essencial dos dois livros. O humorismo é algo que precisa ser levado a sério. Requer um temperamento narrativo raro, visível em gênios como Sterne, Mark Twain e, no Brasil, Machado e Nelson Rodrigues (refiro-me especialmente às suas Confissões). É feito de diversionismo, curvas imprevisíveis, contrapontos espirituosos, achados aforísticos. Seu estilo forma ziguezagues que desconcertam o leitor e o fazem sorrir com o absurdo da condição humana. Já existe por aí um longo ensaio sobre esse assunto escrito por Aníbal Damasceno Ferreira (portanto, em vez de ficar aqui me alongando, sugiro que se vá direto à fonte). Mas eis onde quero chegar: se é possível identificar um temperamento interessante em LFV, o mesmo, infelizmente, não se pode dizer de Cazarré (ao menos a julgar por este livro, o único que li do autor). Falta-lhe o timing cômico e a sacada diferenciada. Seus diálogos engraçados são apenas engraçadinhos, smartass wannabe. O humor se contenta com trocadilhos bobos, piadas sobre sotaques e idiossincrasias regionais. Eu sei, a torcida vai mais uma vez argumentar dizendo que senso de humor é algo absolutamente pessoal. Respondo reproduzindo outra passagem de A misteriosa…, que considero emblemática:

Finalmente, entendi sua pergunta em toda a sua altura, largura e profundidade. O português não estava brincando. Queria saber se eu preferia morrer degolado ou fuzilado. Não era um dilema filosófico que me atraísse muito. Gosto de discutir questões de menor transcendência. Como, por exemplo: por que o condicionador acaba antes do shampoo?

Se você, ao contrário de mim, divertiu-se, achou a passagem inteligente e espirituosa, então simplesmente esqueça tudo que foi escrito até aqui. A culpa é toda do juiz.

Agora, se você também não achou graça nenhuma, chegou até a sentir no ar aquele silêncio constrangido depois de uma piada fraca lançada no salão, então acabou de ter uma mostra do que há de mais deficiente em A misteriosa…. Um livro que não consegue alcançar aquele ziguezague, aquele molejo, aquela tirada genial dos grandes humoristas. Um livro que quer ter a ginga de um Garrincha, mas é duro como um zagueiro central escocês. Os espiões, por sua vez, joga relaxado, aproveitando ao máximo os seus dotes, mas com consciência de suas limitações. Está longe de ser o maior time da história do futebol, mas tem seus rompantes de gênio e, sem fazer alarde, chega mais longe do que muitos esperavam.

Um jogo desigual, portanto. Apito final – seis a um.

Resta ao juiz apontar o centro do gramado. E fugir correndo sob os escudos da BM.

PLACAR
Os espiões 6 x 1 A misteriosa morte de Miguela de Alcazar

VENCEDOR
Os espiões, de Luis Fernando Verissimo

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5 respostas para JOGO 37 – Os espiões x A misteriosa morte de Miguela de Alcazar

  1. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Vendo o resultado desse jogo me ocorreu a seguinte dúvida: vale o saldo de gols?

  2. Luiz Paulo Faccioli disse:

    Beleza de resenha, detalhada e ao mesmo tempo trazendo novidades em relação às outras duas que cada um dos competidores mereceu até aqui. Ñão vou achincalhar o juiz, não, mas pedir para ele um grande aplauso.

  3. Melhor de tudo é que o juiz apita firme, aplica regras de todos conhecidas e com precisão, sem chamar a atenção pra si. Deixa o jogo andar, como se o víssemos na tela grande no antigo e inimitável Canal 100. Mais: convoca o interesse do leitor às obras que avalia. Parabéns!

  4. Bah, Luis Fernando Veríssimo devia ser hors concours. Aliás, devia ser proibido, interditado, dado sumiço no homi, que é muita covardia. LFV, o Barcelona da literatura gaúcha, atropelando, currando e dando de relho nos adversários!

  5. De fato, muito boa resenha. Clara, com seus pontos de vista perfeitamente delineados, motivos expostos com lucidez e a explicação detalhada de por que o juiz preferi um em detrimento do outro. Grande jogo.

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