JOGO 40 – Bolero de Ravel x O gato diz adeus

JOGO 40

Bolero de Ravel,
de Menalton Braff (Global / 2010)
x
O gato diz adeus,
de Michel Laub (Companhia das Letras / 2009)

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JUIZ
Diego Grando
 – É poeta, autor de Desencantado carrossel (Não Editora, 2008) e do libreto 25 Rua do Templo / Palavra Paris (Não Editora, 2010). Trabalha como professor de literatura e comanda o programa literário Mosaico Magazine, na rádio minima.fm. Nasceu em Porto Alegre, em 1981.

JOGO

A disputa entre Bolero de Ravel, de Menalton Braff, e O gato diz adeus, de Michel Laub, já começa no fornecedor de material esportivo. Enquanto a camiseta de Braff, provavelmente marca Dalponte, não se molda bem ao corpo dos atletas (fica aquele embolado perto da cintura), o logotipo da Nike na camiseta de Laub reforça um dos paradoxos da pós-modernidade: um gigante com uma ideia minimalista gera um resultado mediano. Ainda bem que camiseta não ganha jogo.

Pois Bolero de Ravel coloca em cena uma história centrada em Adriano, que, do alto de seus 35 anos, ainda é um cara despreparado para o mundo. E o mundo que se apresenta a ele é o da morte recente dos pais num acidente, da solidão e de seus fantasmas interiores, da necessidade de enfrentar a casa agora vazia, das suas incapacidades, da relação com Laura, sua irmã, único ente (portanto, único elo com o mundo) que lhe resta. Laura, mais nova que Adriano, é seu oposto: tendo puxado ao pai, seguiu na carreira de advogada, é pragmática e objetiva, casou e constituiu família, enfim, é uma peça bem encaixada na engrenagem.

O livro de Braff, narrado pelo próprio Adriano, é uma tentativa de reproduzir verbalmente o ritmo invariável e a estrutura repetitiva do Bolero, de Maurice Ravel, música preferida do protagonista, que são também o ritmo e a estrutura de sua personalidade “aérea”. Isso quer dizer: a linguagem e o pensamento do narrador-protagonista movem-se num contínuo que se quer poético e reiterativo – um punhado de ideias e acontecimentos (o frescobol na beira da praia, o encontro com um mendigo num parque, um prêmio escolar da irmã, a primeira experiência sexual) vêm e voltam à cabeça de Adriano, durante esses dias de semirreclusão em que caberá à irmã resolver as pendengas práticas e jurídicas.

O poético da linguagem vem da opção por inversões sintáticas, imagens e metáforas em abundância e outras tentativas. Alguns exemplos: “Meus olhos queimando quero aqui guardados” (p.7); “o silêncio é um peso marrom” (p.23); “No espelho, minha boca aberta é um grito branco de espuma” (p.33); “Hoje é o dia a mais, um dia que já não me pertence, e não tenho vontade de abrir os olhos porque sinto que me esvazio” (p.143).

Estrutura e linguagem, no entanto, derrapam. Isso porque, em alguns capítulos (sendo específico: 14, 16, 18, 20 e 22), o narrador decide parar, deixando sua linguagem um pouco mais objetiva (e menos obsessiva), e narrar justamente aquelas cenas que vinham e voltavam à sua mente. Num mar de loucura e transtorno, ilhotas de razão, explicações. (Numa nota mental, eu me pergunto se Braff teve receio de não ser entendido).

Mas o lance que realmente conta como uma bola fora é o capítulo 14, em que Adriano relembra sua primeira experiência sexual com a namoradinha da adolescência, Marcela. Ali, o pudor excessivo na linguagem torna o estilo algo constrangedor. Não estou, que fique bem claro, exigindo vocabulário-de-xingamento-à-mãe-do-juiz, mas vejam bem: “ela bem sentiu meu volume apontando em sua direção” (p.83); “ficamos nos esfregando, com as mãos procurando a fonte do prazer” (p.85); “foi a primeira vez que entendi quanto era bronca a mulher que eu tinha escolhido para me inaugurar nos prazeres ditos da reprodução humana” (p.86); “meus dedos subiam tateando suas coxas macias, quando encontraram entre a espessa relva a rosa oferecida e a cálida umidade de seu mel” (p.89).

Na outra metade do campo, O gato diz adeus investe na organização tática do triângulo amoroso. Um triângulo de dimensões reduzidas, é bem verdade.

As 70 páginas do livro de Laub são preenchidas com blocos de texto que conferem, hm, na falta de expressão melhor, agilidade à narrativa. Vemos, então, alternarem-se as falas de Sérgio, Márcia e Roberto, mesclando-se a elas trechos de artigos de jornal, depoimentos, entrevistas, etc.: Márcia é casada com Sérgio, escritor e professor universitário; Sérgio foi orientador e atualmente é colega de Roberto; Roberto se envolve com Márcia; Márcia leva um gato para Sérgio, sinal de reaproximação; tudo isso gera um bocado de problemas.

A estrutura fragmentada proposta por Laub tem um lado bom, que é o de possibilitar o desvendamento paulatino da trama, o enredamento das visões e opiniões sobre os fatos, reproduzindo assim os mal-entendidos, os contrastes e as contradições desse tipo de envolvimento em que, no fim das contas, todos são culpados embora a culpa não seja de ninguém. A verdade está aí, mas não sabemos qual é.

O lado ruim da estrutura de O gato diz adeus, que, aliás, foi brilhantemente aproximada ao encadeamento das falas de personagens de um reality show pela Vivian Nickel, é justamente a ausência (pela impossibilidade) de um maior aprofundamento psicológico: as personagens não conseguem ser nem um pingo mais do que dizem ser. A violência, a crueldade ou a falta de caráter, entre tantos outros (des)qualificativos humanos possíveis, não estão propriamente nas ações das personagens, mas nas suas falas (e falar é, basicamente, a única ação que praticam). E, como sabemos, essas falas são inconfiáveis, irônicas e hipócritas, de modo que é preciso desconfiar de tudo e de todos. O livro, sim, eu sei, coloca justamente a questão do jogo de aparências, o que em tese deixaria todas essas coisas em consonância, mas o fato é que esse espetáculo de banalidade humana retratado pela vida da banalidade humana acaba saindo, na minha opinião, enfraquecido: de tanto não poder acreditar, eu acabo não acreditando mesmo.

Ainda assim, dentro daquilo a que se propõe, Laub se sai bem. E em boa parte porque sua linguagem consegue construir com eficiência o vaivém de intenções e dissimulações, o jogo de esconde-esconde, principalmente nas suas frases longas: “Eu jamais agradeceria por ela estar ali, por ela ter se desculpado pela cena em sala de aula, ela quase rastejando aos meus pés, e essa consciência de que no fundo eu jamais reconheceria a bondade e o caráter dela, de que eu jamais me sentiria reciprocamente devedor de coisa alguma, essa consciência iniciaria novamente o ciclo, Márcia novamente magoada, novamente ressentida, e a frustração porque ninguém percebe como Márcia novamente está sendo vítima faz que ela comece novamente com as provocações, usando o pretexto que está ao alcance, e agora não há dúvidas de que é o fato de ela estar vivendo com Roberto, que remete ao jantar com Roberto, que remete à cena da dança com Roberto e a tantas cenas que ela sabe que eu não quero ver, histórias que não posso ouvir, a voz dela me contando coisas que me fazem virar algo que não sou, que não posso ser, algo que no entanto ela parece ansiar por ver diante de si, então ela usa isso mais uma vez na esperança de que eu tenha uma recaída, a última que eu tive, da qual até hoje me arrependo, ela conseguiu tudo de novo ao coroar aqueles encontros com a notícia de que estava grávida.” (p.47)

Mesmo descontextualizada, dá para ver como essa frase mobiliza quase tudo que a narrativa de Laub quer, encadeando sintaticamente aquilo que se sabe com aquilo que (ainda) não se sabe e com aquilo que se desconfia, num jogo de repetições e antecipações, certezas e incertezas, orgulhos feridos e desejos de ferir. Vale um gol, o gol da vitória.

PLACAR
Bolero de Ravel 0 x 1 O gato diz adeus 

VENCEDOR
O gato diz adeus, de Michel Laub

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