JOGO 41 – Três traidores e uns outros x Bolero de Ravel

JOGO 41

Três traidores e uns outros,
de Marcelo Backes (Record / 2010)
x
Bolero de Ravel,
de Menalton Braff (Global / 2010)

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JUÍZA
Carmen Silveira – Formada em Direito (UFRGS) e Letras (PUCRS), com pós-graduação em Teoria da Literatura, Especialização em Crítica Literária, publicou artigos e resenhas em jornais e revistas. Pesquisou sobre a literatura gaúcha do século XIX, tendo fornecido material para o livro Partenon Literário – Poesia e prosa, em coautoria com Regina Zilberman e Carlos A. Baumgarten.

O jogo

A postos para apitar o jogo, fardada conforme conselho da Carol Bensimon em recente crônica para a Cia. das Letras, com um moletom-pretinho-básico. Os times já estão em campo, perfilados. A juíza, ainda em aquecimento, mostra certo receio, mas não está maitenamente nervosa.

Não conheço os times, embora já tenham se apresentado em outros campos. Olhando de fora, chamam a atenção os uniformes. Bolero de Ravel (de ora em diante, apenas Bolero), de Menalton Braff, tem uma capa interessante, mas seu interior sofre de terrível mal: folhas brancas, alvas, ebúrneas, que fazem as linhas “pularem” num contraste terrível, muito Op-Art. Do outro lado, Três traidores e uns outros (de ora em diante, Três traidores), de Marcelo Backes, apresenta uma capa com as cores do Flamengo e um rasgado estranho. Bastante minimalista, não chega a me agradar. Mas ganha pontos pelas páginas amareladas, cujo papel deve ter um nome simpático.

Ao jogo, então.

TRÊS TRAIDORES E UNS OUTROS, de Marcelo Backes

I.
O livro divide-se em cinco partes, cada uma com sua própria história, tendo como fio condutor o personagem-narrador. São quadros, pintados com as cores da lembrança, sendo que o primeiro em exibição se revela o último. O personagem é oriundo de uma cidade missioneira do interior do RS, com forte influência da colonização alemã. A narrativa é contada em primeira pessoa, com toques evidentemente autobiográficos. E – interessante notar – embora os textos carreguem muito da vida do autor, o narrador mantém um distanciamento dos fatos, quase como um personagem-observador e não diretamente participante dos eventos ou o que deles sobrou. Há uma distância entre a palavra dita e o fato existido ou rememorado. Nesse tom nostálgico, derrotista até, se define: “Eu tinha sido um tradutor famoso, escritor frustrado ainda por cima, chamado até de filósofo, e metido a ensaísta”. Assim, adverte o leitor sobre o que encontrará: “Só o cerne da experiência, aquilo que doeu de verdade, foi, é e continuará sendo igual, sempre igual. O que verdadeiramente importa, no fundo, é apenas o momento que um outro chamou de epifania, certa vez, e que a gente revive na lembrança como se estivesse acontecendo agora, pouco importando a idade que se tinha no passado dos fatos”.

É nesse tom que desenvolverá sua história, pinçando momentos relevantes, de conquistas, desejo, perda, enfurecimento e derrota.

O primeiro quadro, O enforcado, gira em torno de Toz, um tipo de triste história conhecido na cidade, apaixonado, não consegue desenvolver sua relação pela jovem Doroti, por forte oposição de sua mãe. (Aqui o autor peca largando o maior dos clichês, sobre a incapacidade de romper o cordão umbilical.) Na verdade, o personagem-narrador também não consegue se desvencilhar da sua própria origem. Embora tendo saído da cidadezinha, jurado nunca mais voltar, acaba recomprando sua casa ancestral e vai passar sua velhice, solidão e aleijume no meio da comunidade que o viu nascer, partir e ter sucesso profissional.

O segundo quadro, Outono dourado, relata sua permanência em Straelen, pequena cidade de 1063, mas que “nem os alemães a conhecem direito”. O que a põe no mapa é o fato de abrigar a Academia Europeia de Tradutores. É nesse entorno que reencontra Latica, que fora sua aluna em Freiburg e a quem orientara no caminho da escrita. Latica comparece como escritora homenageada. Mesmo assim, após vários casamentos, Latica continua presente em seu pensamento e forte o desejo de reencontro. Em uma série de metáforas sobre água, cais, porto (talvez pela referência a Caetano Veloso no capítulo e ao canto “Navegar é preciso”), declara que “Ainda hoje não entendo por que me contentei em lançar âncora, apenas, por que não me acorrentei ao teu cais”.

É nesse capítulo que o personagem-narrador melhor se define: “Bem cedo vi que sou daqueles que sofrem muito mais com o sofrimento do que se alegram com as alegrias…”.

Embora o texto de Marcelo Backes esteja repleto de pequenas histórias, em todas é possível perceber a nota de tristeza e sofrimento. Não narra contentamento, mas perdas.

Na composição dos quadros, vai largando fiapos de sua constituição emocional e física.

Este é o quadro mais poético e também o mais ferino, talvez. De um lado, seu amor por Latica; de outro, a crítica que faz pela boca de outro tradutor (diga-se, merecidamente!) ao escritor “argentino” Paulo Coelho – “gostaram dessa, Hermanos?”. Duplo ataque aqui: à ignorância do crítico e ao próprio Paulo Coelho. Chama seu último livro de “seu último acinte” e, como não posso deixar de concordar com Backes de que o Pablito merece o bofetão, eis que, sozinho, sem obstáculos, Três traidores faz um gol brilhante.

É ainda nesse contexto da Academia Europeia que expõe com acritude sua ressalva aos revisores que, muitas vezes no seu afã de correção gramatical, aniquilam o texto traduzido: “Sim, porque esses revisores de merda sempre tentam simplificar o que a gente se esfalfou tanto pra deixar poeticamente parecido com as peculiaridades do original”. E faz – mais uma vez – apologia do ofício do tradutor: “que ele [o tradutor] muito antes de levar a obra ao leitor, deve trazer o leitor à obra”.

Os outros quadros mantêm a mesma tonalidade, de amores, fracassos, mentiras, crítica e o início de uma caminhada, ainda que trôpega, que o levará aos pagos de onde fugira para não mais voltar.

Em O pé direito há toda uma dor física que, às vezes, o narrador associa à dor da perda amorosa, como se uma punição fora. “Eu que sempre dei muleta aos outros na arte, agora terei de aceitar as próteses na vida, caminhar com os pés que não são meus, que não são de ninguém”.

O quadro-conto No meio do caminho relata a história de um cidadão da Alemanha que, no Brasil, contrata um tradutor, no caso, o narrador, para acompanhá-lo e traduzir suas sessões com um psicoterapeuta. O alemão revela que matou sua esposa, a qual tivera um caso amoroso com um turco. Na apuração do assassinato da esposa, pesou na balança o fato de o turco ser apenas um turco, enquanto o alemão “era um compatriota, e ademais cidadão respeitado, promovia o progresso da nação dentro e fora da Alemanha”. E eis aqui uma das tantas pinceladas iluminadas com as fortes luzes que o autor projeta sobre o preconceito e as diferenças sociais. É pristina sua opinião, quando comenta: “Era a classe alta da globalização querendo voltar ao castelo medieval. O fosso contemporâneo se localiza na portaria, e era intransponível ao inimigo.” E esse tipo de crítica lúcida que o torna um observador impiedoso de si e dos outros, marcando um gol certeiro, sem chances de defesa para o goleiro.

Por fim, o quinto quadro, Epílogo, como todo epílogo, encerra a narrativa, porém, em união com o primeiro quadro, O enforcado: “Quanto mais a gente pensa que tem que endurecer na casca, mais empedernido acaba na alma e, longe de se proteger da dor, acaba se machucando ainda mais”. Voltar foi reviver toda a sua existência, sentindo-se vazio e perseguido pelo passado. Voltou por desgosto, amargura e falta do que fazer.

Nesse tom melancólico encerra sua história.

II.
Marcelo Backes usa uma linguagem coloquial, aliás, extremamente coloquial. Para mim que sempre acreditei que os “pras” e “pros” caíam bem num diálogo direto, antecedido de travessão e outros indicadores, os termos subvertidos apanhados da linguagem oral valiam na perfeição de Guimarães Rosa, ou dos achados do Modernismo, me deixaram surpresa por aceitar e acatar o linguajar escolhido pelo autor para recontar sua história. Usa a primeira pessoa o que, em princípio, lhe dá direito a esse idioma popular. E consegue, através de expressões aglutinadas, manter o ritmo da fala como, por exemplo, em “fiadaputa” e “praquilo”, termos largados no meio do discurso acrescentando verossimilhança ao texto.

Também o uso de ditos populares, com recheios diferentes, acrescenta valor à linguagem pelo humor que – em meio a tantos fracassos e dores – deixa o leitor com um sorriso satisfeito. Exemplificando, o “estar por cima da carne seca” se transforma na prosa de Backes em “…meu orgulho simplesmente queria mostrar que eu estava por cima do charque naquela pendenga?” Ou, ainda: “O jeito era botar o rabo entre as pernas, fazer as malas e cachorrar de volta...”. E, talvez, a sua melhora tirada: “… pra onde eu não voltaria nem que todo o rebanho bovino gaúcho tossisse simultaneamente, e em alemão”.

Todo o texto de Backes está eivado de lances bem humorados, cômicos, que contrabalançam as perdas e dores sofridas pelo narrador. A embalagem do texto é o ofício de tradutor, o ato de traduzir, e isso, por vezes, me pareceu excessivo, quase didático. Mas vale pela crítica e/ou valorização que atribui à profissão. Acho que quem traduz apreciará o texto. Os demais leitores certamente gostarão dessa história e sairão do livro, ora comovidos, ora risonhos. Um bom equilíbrio para um jogo.

BOLERO DE RAVEL, de Menalton Braff

I.
Bolero narra a história de Adriano e sua irmã Laura após a morte dos pais, intercalando flashbacks da vida pregressa da família e de cada um de seus componentes. Adriano, no enterro dos pais, lembra-se de um momento na praia: ele assistindo, imóvel, com os pés enterrados na areia, à sua irmã e ao namorado dela jogando frescobol, e um cachorro baio que brinca. Essa imagem é uma das recorrentes no texto, como os sons do Bolero de Ravel, que se intercalam, se repetem, crescem. O único prazer de Adriano é a música. Deixou de estudar muito cedo, vive à sombra da mãe que o mima ao extremo (“Minha mãe era iluminada”). Ele traça seu autorretrato aos poucos: “Não me sinto bem em lugar algum; estou sozinho e não sei o que fazer de mim; Como sempre, meu estorvo é a cabeça acelerada”. Ou ainda: “…perguntei…se o futuro realmente existia. Mas tudo, repliquei, quando acontece, acontece no presente. E se nada acontece no futuro é porque ele não existe”. “…só a música existe”. E assim foi sua vida até a morte dos pais, somente o presente, o gosto do presente, as necessidades cotidianas supridas, sem qualquer interesse ou preocupação pelo amanhã, uma eternidade garantida pela paralisação do tempo.

Laura, por sua vez, é uma mulher ativa, com família própria, descrita pelo irmão como seu contrário: enquanto ele diz “Nunca tive uma agenda”, ou “Se eu aceitasse uma agenda, eu aceitava um comando. Não aceito”, descreve a irmã como uma pessoa que sempre teve facilidade para organizar a vida. E acrescenta: “A Laura não existe a não ser em suas ações e suas ações obedecem a uma agenda. Ela controla o tempo, mas controla como feitora, a serviço de sua vida social”.

O sentimento de Laura por Adriano é ambivalente. É capaz de chorar abraçada ao irmão, lamentando a perda dos pais, ou passar a mão pelos cabelos dele, num gesto de aproximação. Mas não perde a objetividade e o retrata como um inútil: “Nesta casa, meu irmão, você nunca passou de um enfeite que a mamãe tratou de cultivar. Um quadro na parede, um vaso de flores, uma tapeçaria, e meu irmãozinho, que jamais aprendeu a fazer coisa alguma para não ser conivente com o mundo que não presta e que, por isso, não aceita”.

Ao final, nada sobra para Adriano ou de Adriano. Nem mesmo a sua música. Sua mente vai e volta em imagens do passado associadas ao presente, e vão se confundindo, numa dolorosa espiral até a conclusão: “Apenas a escuridão existe. Apenas a escuridão. Apenas”.

II.
A linguagem é forte, tem bons momentos poéticos: “O dia estava resfriado em todas as suas direções por causa do vento que derrubava das nuvens uma chuva de soslaio”.

Cabe destacar a forma como o autor utiliza o discurso direto, inserindo-o dentro do texto, misturando pensamento de um e a fala de outro personagem, separando-os apenas com uma vírgula e uma maiúscula: “Minha irmã bateu com as duas mãos no volante, Vários compromissos amanhã cedo, Adriano, jeito nenhum de adiar alguns deles”.

III.
Menalton Braff desenvolve a narrativa ao ritmo do Bolero de Ravel. Já nas primeiras páginas, o fundo musical se insinua. A construção do texto segue o andamento musical de Ravel, a angústia que cresce sem resolução final; começa em tom baixo e vai num crescendo “espiralado”, como a vida do personagem, que termina por cair no delírio sem solução.

Na minha imaginação, a coisa ficaria por aí, mas, lamentavelmente, lá pelas tantas, o autor admite a relação texto-música. E, assim está, expressamente: “Aquele motivo repetido obsessivamente, a frase que permanecia quando parecia ter sumido, o modo como aos poucos tudo crescia, tomava conta de meus sentidos até a apoteose final. Tudo isso era o modo como eu saía do tempo, me ausentava do mundo para ter existência apenas na música”.

Para mim, aqui a narrativa se perdeu, foi uma escorregadela que deixou ossos fraturados. A doença mental de Adriano, espiritual, com a revelação do autor, torna o livro doente. Decepciona. Não que não mereça uma leitura. É bem feito, a vida de Adriano e Laura nessa narrativa rítmica tem momentos altos, atormentados, de gritos, de Ravel. Mas tenho que fazer uma escolha. E não sou Adriano que foge da responsabilidade da vida, dizendo: “Não quero ser responsável por ato nenhum”, embora concorde quando ele declara “…eu acho que escolher é uma coisa difícil”.

Mas preciso decidir o jogo.

PLACAR
Três traidores e uns outros 2 x 1 Bolero de Ravel

VENCEDOR
Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes

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3 respostas para JOGO 41 – Três traidores e uns outros x Bolero de Ravel

  1. “que ele [o tradutor] muito antes de levar a obra ao leitor, deve trazer o leitor à obra”
    É uma referência aos estudos de tradução e à teoria de Friedrich Schleiermacher.

    http://translationista.blogspot.com/2011/02/friedrich-schleiermacher.html

  2. Diego Lopes disse:

    Curioso ver a opinião de dois críticos diferentes sobre o mesmo ponto.
    Nesta análise, Carmem Silveira apontou:
    “Também o uso de ditos populares, com recheios diferentes, acrescenta valor à linguagem pelo humor que (…) deixa o leitor com um sorriso satisfeito. (…) a sua melhora tirada: “… pra onde eu não voltaria nem que todo o rebanho bovino gaúcho tossisse simultaneamente, e em alemão”.”
    Já Bruno Mattos, em outro jogo, escreveu:
    “há alguns escorregões consideráveis no tom narrativo. Por exemplo: em determinados momentos, a inventividade linguística de Backes deságua em jogos de palavras bobinhos , ou em piadas tão ruins que chegam a soar inverossímeis (um inferno distante à beira do grande rio, pra onde eu não voltaria nem que todo o rebanho bovino gaúcho tossisse simultaneamente, e em alemão).”

    No fim das contas, a crítica, na maior parte das vezes, é apenas a justificativa do gosto pessoal.

    • Carmen Silveira disse:

      Diego, muito bom teu comentário.
      A resenha do Bruno Mattos, em termos gerais, está melhor do que a minha. Mas, quanto à linguagem, sou mais eu. Esses regionalismos banais, revestidos com outras cores, realmente fazem o leitor sorrir, especialmente leitores mais “antigos”. Além do mais, tais ditos não estão soltos no texto, mas vinculados ao momento vivenciado pelo narrador-personagem. Daí a graça. Mas, tens toda razão: no final, é apenas uma justificativa do gosto pessoal. Abraço. Carmen Silveira

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