JOGO 43 – Anjo das ondas x Todos morrem no fim

JOGO 43

Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)
x
Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)

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JUÍZA
Marianne Scholze – Nasceu em Porto Alegre, em 1975, em pleno Dia da Árvore – o que talvez explique astrologicamente a adoração desde sempre por livros. Jornalista, trabalha há 15 anos no Grupo RBS: metade desse tempo na cobertura esportiva, a outra metade na área cultural. Ainda tenta se convencer de que foi por isso, e não por ser prima da organizadora, que veio parar aqui, à beira do gramado, com um apito na mão. Também trabalha como revisora freelancer para a editora L&PM e é mãe da Cecilia, de quase três anos – e tão ou mais fanática do que a mãe por contar e ouvir histórias.

Pré-jogo

É um mundo injusto, eu sei. Mesmo assim, não posso deixar de choramingar minimamente a respeito da injustiça de ter de apitar um jogo tão díspar. Não é nem uma questão de primeira rodada da Copa do Brasil, em que a desigualdade de qualidade é tão gritante que dois gols de diferença fora de casa já eliminam o jogo de volta. Não. Aqui, a desigualdade é quase que de épocas e estilos de jogo – enquanto Noll traz a elegância e a sutileza do futebol-arte (que, apesar da plasticidade, não é unanimidade entre os torcedores em busca dos três pontos), Gerbase apresenta a objetividade e o jogo tático apertado na marcação do futebol de resultados (que faz boa parte do público ressentir-se da falta de dribles e passes mais trabalhados).

Dá mesmo para comparar? Bom, eu vou tentar.

Aquecimento

Ao julgar os livros pelas capas, a vantagem vai para o policial de Gerbase, com sua clássica combinação em preto e branco e detalhes em vermelho. Romance sobre um adolescente, o livro de Noll vem com, bem, um adolescente na capa e traz o título em fonte que lembra um rabisco também juvenil.

Se por fora Todos morrem no fim conquista pela estética mais condizente com o conteúdo (além de um par de óculos quebrados, há uma mancha em vermelho que lembra uma poça de sangue e que reproduz a silhueta de um – arghs! – rato), por dentro dá um cansaço só de olhar para as páginas. Vamos combinar que Times New Roman pode até tentar remeter a um clima noir de máquina de escrever, mas é uma fonte bem chatinha de ler – não que a Dolly usada em Anjo das ondas seja das mais “limpas”, mas pelo menos a margem e o entrelinhamento maior ajudam o livro a “respirar”. Isso sem falar nas páginas escuras com apenas alguns traços em branco que separam os capítulos no livro de Noll, deixando a edição ainda mais bonita e arejada.

Digamos que Gerbase ganhou o pontapé inicial, e Noll escolheu o lado do campo para começar a partida.

Pré-jogo

Pode ser tique de revisor, mas andei assuntando por aí e concluí que não é SÓ tique de revisor: livro com problemas de revisão desanima a maioria dos leitores. Nesse caso, pior para Todos morrem no fim: são tantos erros de revisão e de natureza tão variada que muitas vezes passei do mero desânimo à irritação – mas aí, admito, pode ser meu lado virginiano falando mais alto. Fora as questões gramaticais e até de digitação, a certa altura é mencionado um orelhão em Porto Alegre localizado na esquina da Ipiranga com a Freitas e Castro – duas ruas que correm em paralelo no bairro Azenha.

Já entrou em campo pendurado por dois cartões amarelos.

A partida

Ainda um adendo antes do início do jogo: foi minha primeira incursão na obra literária de ambos os autores. Nunca havia lido nada nem do Noll, nem do Gerbase. Acredito que isso tenha me mantido mais isenta para analisar os livros em si, isoladamente do conjunto literário construído por cada um.

Dito isso, vamos ao jogo na ordem em que os li.

Anjo das ondas

Trata-se de 122 páginas, tranquilamente encaráveis em uma noite de chuva. O tom do que vem a seguir já nos é dado pelo prefácio, assinado por Marcelino Freire e intitulado Mergulho, em que um fluxo de consciência semelhante ao da narrativa de Noll é utilizado para apresentar o próprio autor gaúcho.

Sou uma fanática pela primeira frase de qualquer obra, mas nesse caso o primeiro parágrafo inteiro é de uma graciosidade só:

Tinha o mesmo sinal do pai na face. Aos pingos de suor o guri dava cambalhotas e sorria para tudo e para nada. Uma bem-aventurança lhe aflorava aos lábios e ele não esboçava nenhuma intenção de dissolvê-la.

Gol do Noll, já assim, de cara.

À medida que o livro avança, somos apresentados a esse tal guri, Gustavo, que vive com a mãe e a avó em Londres e decide passar um tempo com o pai no Rio de Janeiro ao completar 15 anos. Rito de passagem, romance de formação, tudo isso se encaixa ao romance e é como você, leitor contumaz, está imaginando – só que diferente. Porque a narrativa muda da primeira para a terceira pessoa com uma naturalidade que não permite discernir entre narrador e personagem; porque às vezes o fluxo de consciência é tão intenso que é preciso voltar atrás e reler algumas linhas para captar o que não foi possível ao primeiro passar de olhos; porque às vezes nem isso é o suficiente para entender 100% o que se passa.

É um romance sobre um adolescente, mas não é para um adolescente. Ao contrário, as reflexões, os questionamentos, os anseios e as angústias de Gustavo compõem um quadro que a maioria dos adultos talvez nunca tenha tido o tempo ou a coragem de contemplar. O contraste entre o frio e o calor das duas cidades, entre o sucesso da avó, cantora lírica em solo britânico, e o fracasso do pai, escritor pé-rapado na areia carioca, entre a infância e a vida adulta que se descortina à frente de Gustavo, tudo é tratado com tal intensidade – e profundidade – que fica fácil se perder na narrativa e até mesmo duvidar da própria leitura: confesso que me peguei pensando se havia entendido mesmo o final, quando Gustavo encontra outro Gustavo, homônimo que teria sido seu colega de colégio na infância. Ou não? Ou seria um alter ego? Ou fruto da imaginação do garoto? Ou a manifestação de um desejo ainda não totalmente compreendido?

No início, essa dúvida me deixou ressabiada em relação ao livro. Depois de alguns dias, abracei-a como uma qualidade intrínseca da literatura: a de fazer pensar, de permanecer com a gente e de martelar na nossa cabeça mesmo depois de lida a palavra “fim”. Então, pronto: mais um gol do Noll.

Todos morrem no fim

Confesso que já cheguei meio cansada à leitura ao espiar lá no fim: 326 páginas naquela fonte Times, com diálogos entre aspas em vez de travessões, não seria bolinho. Mas não é que me surpreendi?

O ritmo ágil da história permite um folhear constante e interessado das tais 326 páginas, mesmo com um estilo de narrativa que não é o meu preferido: o de duas histórias em paralelo que, sabe-se desde o início, terão algo em comum no final. Uma delas situa-se no passado, com os verbos nesse tempo indicando constantemente onde estamos; a outra se passa no presente, e novamente somos lembrados disso pelo tempo verbal. Admiro horrores a atenção a detalhes formais, então aí vai: um gol para o Gerbase.

Ah, sim. A saber, as duas histórias: filho de um militar, durante a Ditadura Tavinho envolve-se no sequestro de dois uruguaios por parte da polícia brasileira – em uma reprodução gritante do caso real envolvendo Lilian Celiberti e Universindo Diaz em 1978. De volta à atualidade, o inspetor Otávio concentra-se em solucionar o estupro de uma professora universitária em Sapucaia do Sul tanto quanto se divide entre nacos de lanches entupidores de artérias, longos goles de cerveja e pequenos favores remunerados solicitados a uma prostituta decadente. É de longe o personagem mais carismático do livro, ainda que a certa altura toda essa gordura do submundo escorra pelas páginas – cansando um pouco a paciência mesmo de uma fã de anti-heróis e romances noir como esta aqui.

Pela metade do livro, decifrei o elo entre as narrativas (e acho que mosqueei, porque dava pra ter percebido bem antes), e a solução do caso do estupro me pareceu cristalina desde a primeira aparição dos personagens culpados na trama. Não que eu acredite tanto assim na minha própria capacidade detetivesca: desconfio é da capacidade do autor em manter o mistério até o final.

Enfim, como o apito está em minhas mãos, decreto assim o jogo encerrado.

PLACAR
Anjo das ondas 2 x 1 Todos morrem no fim

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

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3 respostas para JOGO 43 – Anjo das ondas x Todos morrem no fim

  1. paulo tedesco disse:

    Gostei da crítica, aliou objetividade com um refinado gosto pessoal. Boa mesmo, parabéns.

  2. Sergio disse:

    Acho que está pintando o campeão.

  3. Sei não, mas começou a me bater uns tiques da síndrome de estocolmo. O primeiro jogo vencido pelo Anjo das Ondas foi contra minha novela O Império Bandido, e o resultado, ai, ai, ai: 2 x 1. Torcer por Noll é sempre fácil, mas nessa condição, ai, ai, ui!

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