JOGO 45 – Todos morrem no fim x Suíte dama da noite

JOGO 45

Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)
x
Suíte dama da noite,
de Manoela Sawitzki (Record / 2009)

—————
—————

JUIZ
Samir Machado de Machado – Nasceu em Porto Alegre em 1981. Como designer, faz umas capas de livros aqui e ali e mantém um blog sobre o assunto, o Sobrecapas. Como escritor, organizou quatro volumes da coleção Ficção de polpa, dedicada à literatura de gênero, e lançou uma novela, O professor de botânica.  Como roteirista, foi premiado no Festival de Cinema de Brasília, Curta Amazônia, Cine-PE e Histórias Curtas RBS pelo roteiro do curta-metragem Traz outro amigo também, adaptado do conto de Yves Robert. É um dos editores da Não Editora.

Os uniformes

Em tese, capa não garante gol, já que estamos aqui avaliando a obra literária em si, e não a obra enquanto projeto editorial. Eu digo em tese, porque lá fora, no mundo não virtual de pessoas que compram livros em livrarias, a capa se torna o fator determinante de compra. Quando corre o olhar pela prateleira em busca de algo que salte aos olhos, conforme aquilo que está acostumado a identificar como o tipo de capa geralmente associada ao tipo de livro que se gosta, alguns se dão melhor que outros. O tipo de leitor que Suíte dama da noite pede vai perceber a arte clean de Carolina Vaz se destacando na prateleira e, se pegar o livro na mão, vai sentir um papel texturizado com ondulações delicadas tipo uma batata Ruffles, que dão ao conjunto uma leveza curiosa e elegante e que, de certa forma, refletem a elegância da prosa da própria autora. Já o leitor ideal de Todos morrem no fim, o leitor de histórias policiais, terá sorte se perceber a capa escura do livro na prateleira. O livro de Gerbase faz parte da coleção Flores do mal da Editora Sulina (cujo outro volume lançado foi Raízes do mal, de Maurice Dantec) e obedece a um padrão específico com ênfase no fundo preto e no contraste com o vermelho em forma de mancha de sangue. Mas o resultado não é dos mais empolgantes, ainda mais para quem corre os olhos pela prateleira de literatura policial, o livro passa quase despercebido em meio a livros que exploram de modo mais instigante em suas capas os elementos típicos do gênero – o que é uma pena, pois o livro merece maior destaque. Ao menos, o livro de Gerbase tem um papel excelente, macio e leve, que faz com que o livro, que tem o dobro do tamanho do aqui concorrente, pareça até mais leve. Pode não parecer um elemento importante, mas, como estamos falando de um livro físico, não um e-book, o fato de poder lê-lo sem precisar esgarçar o livro faz a diferença, é agradável ao toque e não preciso ficar com medo de cortar os dedos ao virar a página como se fosse de papel sulfite (acredite, já me aconteceu).

Mas chega de conversa de bibliófilo, vamos aos livros. Antes, é bom frisar que o resenhista aqui não entende nada de futebol, aliás detesta o esporte. Então metáforas futebolísticas não se farão muito presentes.

Suíte dama da noite

O livro é centrado em Júlia Capovilla, que logo nas primeiras páginas lida com a notícia da morte de seu amigo de infância (e amante) Leonardo, e os preparativos para ir ao velório. Acontece que Leonardo, pelo que mais tarde descobrimos ter sido uma coincidência do destino na vida de ambos, acabou casando com a irmã de Klaus, marido de Júlia. Ela, por sua vez, é uma mentirosa compulsiva e incapaz de se conectar com as pessoas e o mundo à sua volta. Ao longo das páginas, vamos descobrindo a importância que Leonardo teve em sua vida justamente por ser a única pessoa com a qual conseguiu se relacionar plenamente. A construção da personagem de Júlia é um dos maiores méritos do livro de Manoela Sawitzki, acima mesmo da habilidade com que alterna momentos em terceira e primeira pessoa. Aliado à sua prosa poética e à engenhosidade na criação de metáforas, cria uma personagem desagradável como poucas. Júlia Capovilla é emocionalmente egoísta e autocentrada, assombrada pelo medo de ter herdado a loucura da avó (que chocou a cidade interiorana onde nasceu até ser internada num hospício) e presa a um relacionamento vazio com o marido que se humilha por migalhas de afeto. Alguns dos resenhistas anteriores apontaram a questão da bipolaridade da personagem, mas essa interpretação sinceramente nunca me ocorreu (não descarto, só foi uma coisa que não me pareceu crucial para o entendimento da personagem, talvez mais uma camada). Mas discordo de uma resenha anterior que apontou uma leve predominância de ação interna sobre a ação externa. A ação interna, a meu ver, predomina em absoluto no livro. Mesmo nos flashbacks em que a personagem volta à infância (as melhores partes do livro), o texto é tomado de metáforas e digressões que, em alguns momentos, acabam se tornando um tanto espirais, um tanto redundantes, como que reforçando sentimentos que já estavam bem claros (e me dá vontade de dizer à Júlia Capovilla: ok, minha filha, já te entendi, siga adiante). Aliás, a personagem tem o curioso hábito de se referir a si mesma na terceira pessoa, o que me pareceu melodramático na maior parte do livro, mas ao final tem um sentido.

SPOILER ALERT: se você resistiu até agora à tentação de clicar na barra de rolagem e ver logo de uma vez o resultado (duvido que tenha, eu nunca consegui), pode pensar que a essa altura o jogo a quantidade de elogios já aponta um resultado. Ledo e Ivo engano. Há mais para se falar, mas antes, vamos ao segundo competidor.

Todos morrem no fim

Confesso que peguei o livro de Gerbase com certo olhar desconfiado – primeiro, pela capa pouco atraente, segundo, pelo autor ser mais conhecido como cineasta, e sempre fico com um pé atrás quando vejo um artista acostumado a uma linguagem se aventurar em outra (o que, no final das contas, é só mais um preconceito). Mas, engano: o livro de Gerbase me surpreendeu do começo ao fim.

O começo, no caso, narra o estupro e a tentativa de assassinato de uma professora universitária num campus na região metropolitana de Porto Alegre, que é investigado por Otávio – um detetive decadente, obeso, alcoólatra, corrupto e seboso, com métodos de investigação pouco profissionais, mas, em todo caso, eficientes. Em paralelo, acompanhamos Tavinho, filho de militar e ele próprio um ex-milico, que nutre uma paixão secreta pela secretária do pai, e por esse é chamado ao quartel para assumir, ao lado da moça, uma missão de caráter nebuloso. As duas histórias se alternam, parecem correr em paralelo, mas aos poucos se torna claro que, enquanto o detetive Otávio investiga os podres do mundo acadêmico com o ritmo e o estilo de um romance policial hard-boiled, o ex-militar Tavinho envolve-se numa trama que espelha o sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz, com um verniz noir envolvendo desde uma mulher de caráter ambíguo – Verinha, a secretária cujo envolvimento na história vai tornando-se nebuloso – a uma trama envolvendo um contexto político maior do que a capacidade de Tavinho em resolvê-lo. Porém – e aqui vai um leve spoiler, se não quiser saber aconselho pular para o próximo parágrafo, senão, segue o baile –, lá pela metade do livro, um detalhe crucial vai tornando-se cada vez mais claro: Tavinho e Otávio são a mesma pessoa, separados por 30 anos de desilusões. Talvez fosse óbvio desde o começo, não sei, para mim não era, e foi com certa surpresa empolgada que percebi – como numa boa história de detetive, algo que estava ali na minha frente o tempo todo, mas que só foi sendo revelado aos poucos. Desse ponto em diante, a história não muda, mas o sentido que damos a ela sim: Gerbase segue com suas duas tramas paralelas, mas no espaço alternado entre um capítulo e outro, vamos compreendendo como aquele jovem ingênuo e idealista transformou-se na aberração física que é o detetive Otávio, “tentando lembrar-se do homem que um dia foi”.

Uma conclusão

Dois livros bastante opostos. A obra de Manoela Sawitzki privilegia a linguagem, a de Gerbase, o enredo. Ainda que nem por isso o enredo do primeiro livro seja menos complexo, ou a linguagem de Gerbase – limpa e objetiva, como cabe a uma história policial – seja pobre ou superficial, pelo contrário. E ambos desenvolvem personagens complexos, ainda que Gerbase leve vantagem ao compor uma gama de personagens distintos, alguns bastante superficiais, mas marcantes, como o sem-número de suspeitos do crime, outros suficientemente complexos e intrigantes para colocar o leitor a imaginar suas reações à trama nos momentos em que não participam dela, como o pai do protagonista, o Tenente-Coronel Ribeiro, e seu pragmatismo moral desconcertante.

Existe outro fator, é claro. Diferente de um jogo de futebol real, onde dois times jogam e ao juiz cabe apenas apitar faltas e aplicar regras, literatura não se encaixa em padrões pré-estabelecidos de qualidade, não há requisitos a serem preenchidos num checklist do bom livro que o tornem automática e universalmente “bom livro” (mesmo que haja muitos que pensem assim). No fundo, é tudo uma questão de gosto pessoal dos leitores. E, nesse caso, o trabalho de Manoela, mesmo com méritos literários muito claros, onde alguns verão lirismo, eu vejo descrições repetitivas de sentimentos num tom grandiloquente que me aborrece e, às vezes, me entedia; enquanto o livro de Gerbase, como todo bom livro – numa metáfora vulgar que certa vez usei para descrever o ritmo de um bom best-seller –, te agarra pelas bolas e te arrasta até a última página, com um ritmo dinâmico, um estilo fluído e que em nenhum momento cai nas armadilhas da linguagem pobre e das fórmulas estilísticas da literatura comercial.

Considerem, no caso do livro de Manoela, como um gol legítimo anulado pelo juiz (o meu gosto pessoal, no caso). Quanto ao livro de Gerbase, me fez cuidar as horas para que passassem logo e eu tivesse algum tempo livre – no ônibus, no almoço, antes de dormir – para me isolar e ler mais algumas páginas, e isso, para mim, é um autor marcar um gol de encher os olhos.

PLACAR
Todos morrem no fim 3 x 2 Suíte dama da noite

VENCEDOR
Todos morrem no fim, de Carlos Gerbase

Anúncios
Esse post foi publicado em Jogo e marcado , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para JOGO 45 – Todos morrem no fim x Suíte dama da noite

  1. paulo tedesco disse:

    “Ledo e Ivo engano”, por essa, já valeria um elogio à crítica, genial, mas a objetividade e a sinceridade do crítico enquanto leitor que luta contra a lei da gravidade, para não deixar o livro por terra, fazem desse jogo um ponto a mais no bom Gauchão.

    • Luiz Paulo Faccioli disse:

      Putz. “Ledo e Ivo engano” é de lascar. Um trocadilho sem graça e que já se usou para além do suportável. Vou começar um movimento de desagravo ao personagem ironizado por ele.

      • Poxa Faccioli, concordo contigo, mas só quem tem mais de cinquenta anos sabe quem foi a Leda que cometeu o engano (e sobre isso há controvérsias que nos remeteriam aos gregos) e quem é o Lêdo Ivo (que adora contar essa piada). E esses mitos e cacos literários têm de sobreviver de uma geração para outra, alguém deveria fazer o censo dos usos dessas cousas. Em algum lugar das Alagoas ele deve estar rindo disso tudo, mas eu assino teu desagravo. Abraços.

        • Luiz Paulo Faccioli disse:

          Gracias, mas depois dessa tua consideração, vejo um novo sentido para o infame trocadilho — “mitos e cacos literários têm de sobreviver de uma geração para outra”. E, se o dito-cujo gosta de perpetuar a piada, quem sou eu para querer frustrá-lo? Abraços também.

  2. Claudio disse:

    Ufa! Tambem acho Manoela grandiloquente, melodramática. E como li em uma critica, a cena do beijo é retirada de Clarice Lispector. Involuntária ou homenagem, sobra no livro. Prefiro sempre o original.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s