JOGO 50 – Anjo das ondas x Sinuca embaixo d’água

JOGO 50

Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)
x
Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)

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JUÍZA
Joana Bosak – Doutora em Literatura Comparada. Professora no Instituto de Letras da UFRGS entre 2007 e 2009. Professora em oficinas de leitura no StudioClio e palestrante no Fronteiras do Pensamento. Autora de ensaios sobre literatura e tradução e do livro De guaxos e de sombras, publicado pela Dublinense. Colaboradora do site www.celpcyro.org.br com artigos sobre literatura e teoria literária.

Concorrentes

O formato pequeno, ainda que não de bolso, combina com a extensão e a proposta dos livros. As capas também estão em sintonia: as cores cinza, grafite e vermelho e azul desmaiados na capa de Sinuca embaixo d’água antecipam a melancolia e a vida dos personagens que escorrem pelas páginas. As bolas vermelhas, soltas na capa, insinuam um misto de borbulhas de água e de bolas de sinuca. Não dá pra respirar.

O amarelo vibrante da contracapa de Anjo das ondas, por sua vez, contrasta com o olhar oblíquo do menino da capa, em um azul cortado por letras amarelas insistentes. As duas capas parecem estar de acordo. Mas a capa de Anjo das ondas me estimula mais a ler o livro pelo toque de humanidade do olhar. E pela vida, que salta do amarelão.

O jogo

Narrativa: o texto de Sinuca embaixo d’água é envolvente de início, instigando a montagem do quebra-cabeça entre as diversas vozes narrativas que vão surgindo, depondo, sofrendo, sobrevivendo à morte precoce de Antônia, aparentemente, talvez, mais madura e resolvida que os que ficam, confusos e perdidos em suas vidas vazias e sem propósitos que não a rememoração do acidente e seus porquês. O enredo vai ficando circular: como a polifonia não permite um avanço linear, as vozes vão, muitas vezes, se sobrepondo. Chega um momento em que parece desnecessário saber outra versão da história. A linguagem é jovem, não jovial. Mas é um jovem sem luz, é de um jovem desesperançado, de acordo com a temática do livro, às vezes um tanto blasé, como se realmente não houvesse outra saída a não ser chocar-se de carro contra um poste.

Em Anjo das ondas, a verdade está submersa. O enredo não linear e espacialmente variado permite uma elaboração diferenciada das sensações de seu protagonista. O fato de termos acesso ao monólogo interior de Gustavo permite que nos aproximemos dele, o que eu acho que não acontece em Sinuca embaixo d’água; apesar do sofrimento não há toque: a humanidade passa ao largo.

A questão do isolamento das pessoas fica clara em Sinuca embaixo d’água, com cada um vivendo a sua realidade separadamente, com capítulos que nomeiam o mundo e a versão de cada um. No entanto, não há troca. O isolamento é total. O que une é a morte e não a vida. Quando Camilo depara-se, em casa, com a mãe, no meio da madrugada, insone, zumbi, fazendo tricô, diz, em uma das melhores construções do texto dolorido: “Sentada na poltrona, de costas pra mim, minha mãe ainda tricotava, sem rádio ou TV, sofrendo apenas, como se desse cada ponto na carne”.

No caso de Anjo das ondas, em que o crescimento com alguma dor também se faz presente a proposta vai noutra direção: não é necessário dizer tudo, mas o pouco que temos acede ao interior de um texto em que o não dito fala mais alto: é aí que Noll mostra a sua não ingenuidade e sua maestria. Seu silêncio fala muito e a economia de suas páginas revela mundos interiores extremamente povoados. Se temos acesso ao mundo interior de Gustavo e suas dúvidas a um tempo existenciais e juvenis; de sua avó sabemos do brilho, da mãe a indefinição, do pai, a desolação.

Em Anjo das ondas as cidades nomeadas também têm vida: na Londres fria o espaço da dúvida é difuso como sua neblina; no Rio, o sol da praia, a malandragem dos ladrões, as amizades eventuais são coloridas e é nesse carnaval de cores – o amarelão que salta da contracapa – que se dá o choque com a realidade – ou com a ficção.

E na sabedoria que alcança Gustavo menino no avião, a visão do futuro a ser conquistado, solar: “E que entre hoje e o meu desenlace, tomara que bem mais adiante, eu cavasse uma sabedoria que viesse dos meus atos e não de algum mestre acima de suspeita”.

A vida encontra a vida.

PLACAR
Anjo das ondas 3 x 1 Sinuca embaixo d’água

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

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3 respostas para JOGO 50 – Anjo das ondas x Sinuca embaixo d’água

  1. Os juízes das semi estão valendo o Gauchão! Bem gostosa a resenha, mesmo sem as minhas queridas piadas. Mais séria ainda que a do Pedro Mandagará, mas objetiva e firme. Gostei.

  2. Não deixa de ser uma ironia (boa, por que não?) que JGNoll ganhe por ter um texto mais “solar”. Curioso que são dois livros com títulos de metáforas/imagens aquáticas, e o título da CBensimon me parece descrever certa atmosfera típica dos livros do Noll, com algo que asfixia, que abafa sons e movimentos. Como diz a juíza, em Noll, a verdade está submersa.

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