JOGO 48 – Sinuca embaixo d’água x O centésimo em Roma

JOGO 48

Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)
x
O centésimo em Roma,
de Max Mallmann (Rocco / 2010)

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JUIZ
Kelvin Falcão Klein – Mestre em Literatura Comparada, faz Doutorado em Teoria Literária. Mora em Florianópolis. Autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem). Acompanhado também do endereço do blog: www.falcaoklein.blogspot.com

O jogo

O centésimo em Roma é aquele tipo de time com camisetas padronizadas: escolheram um modelo na Ughini e mandaram gravar os nomes nas costas. O centroavante, aquele sujeito de barriga um pouco proeminente, fez questão de ficar com a 9: só jogo com a nove, ele diz, e os outros riem, porque é no condomínio do gordinho que eles jogam de vez em quando. Eles chegam falando alto, fazendo alongamento, puxando o meião.

Sinuca embaixo d’água é aquele tipo de time quase improvisado: a coisa mais próxima de um uniforme é uma combinação prévia do tipo: “Todo mundo de camiseta branca, tá?” – ou preta; e se alguém esquece e vai de verde, digamos, o time pode simplesmente virar o time-sem-camisa. É um time perfil baixo – um dos jogadores inclusive foi direto do trabalho e joga de calça jeans arremangada. Não há um gordinho centralizador: há coesão e, principalmente, gentileza no trato com a redonda. 

O jogo, afinal, mostra que as aparências enganam. 

*

Lendo O centésimo em Roma, entendemos porque Borges não gostava de longos romances: se a ideia é boa, um conto basta (um conto inclusive potencializa a ideia, deixando-a densa, plena de possibilidades); se a ideia não é boa, além de já ter sido pisada e repisada ao longo de séculos e séculos de Literatura Ocidental, por que levá-la mais uma vez adiante em um romance moroso e entediante? 

Em seu texto sobre o escritor argentino e a tradição, Borges fala que o autor do Corão, seguro de sua condição de árabe (sequer questionando a verossimilhança de sua condição de árabe), não menciona uma única vez sequer a palavra camelo. Grosso modo, a legitimidade do Corão está em sua feição enviesada, oblíqua: o camelo está ausente não por ser banal aos árabes (o Corão quer ultrapassar os tempos, quer ultrapassar os povos), mas por ser esteticamente desnecessário, e mais: por ser esteticamente perigoso, podendo dar uma dimensão postiça a um texto que se pretende eterno. 

O centésimo em Roma está cheio de camelos, camelos por todos os lados, muitos camelos a cada página. É um livro tão ensimesmado em sua pesquisa, em seu levantamento de bibliografia e dados factuais, que se torna claustrofóbico. Falta à história um ponto de contraste, uma ancoragem, um percurso definido em meio ao universo completamente alienígena do Império Romano. Como naquela passagem do filme de Scorsese: Howard Hughes acabou de filmar a primeira sequência com os aviões no ar – uma batalha aérea, muitos aviões, rios de dinheiro – e, ao ver o resultado, se dá conta de uma coisa: como não há contraste, como não existe um ponto fixo que ofereça a noção de movimento aos aviões que estão de fato se movendo, tudo parece de mentira, tudo parece de plástico, e de nada valeu gastar tudo que gastou, porque ficou idêntico a tudo que foi feito antes. 

Para efeito de placar, digamos que foi um gol contra: Sinuca, 1; Centésimo, 0. 

Inúmeros trechos de O centésimo em Roma contêm um humor semelhante ao de Luis Fernando Verissimo em seus melhores dias – um texto em especial, “Palavreado”, que está no clássico O analista de Bagé. “Palavreado” apresenta três breves cenas; a primeira é, de longe, a mais hilária: não posso ver a palavra “lascívia”, escreve LFV, sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. 

A graça, portanto, está no uso deslocado dos significantes, que não combinam com os significados que o leitor tem em mente (é uma aposta arriscada e, por que não, vanguardista de LFV: o efeito do procedimento depende inteiramente da capacidade de um leitor que nunca está dado). Lascívia tem “um olhar cheio de betume e cabriolé”. Leva seu amante até “uma prótese entreaberta”, depois de subir por um “escrutínio” e percorrer “um longo conluio”. 

O centésimo em Roma, não obstante sua volumosa seriedade, faz uso do mesmo procedimento – um humor involuntário que deixou a passagem das páginas um pouco menos penosa para o Crítico. Vemos um gladiador, vemos suas armas, e, na cena seguinte, ele “destroça o jarro com o gume do gládio” (p. 88). E, na cena seguinte, alguém “tem ao menos uma vantagem sobre o fugitivo: cravos na sola das cáligas” (p. 89). 

Ou ainda: “Dolens aferra a mão no cabo do gládio e perscruta ansioso a névoa” (p. 205). Ou coisas engraçadas num sentido mais amplo, como: “Um médico, porra!” (p. 155), ou “Não voltou para casa. Não se apresentou no quartel. ‘Estou fodido’, ele pensa e se vira de lado, disposto a dormir mais um pouco” (p. 242). E a última: “Sabe que ensinei Turpis a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’? Mostre a ele, Turpis. – Por favor, vá se foder. Obrigado – Turpis recita”. (p. 325). 

Mais um gol contra: Sinuca, 2; Centésimo, 0. 

*

Sinuca embaixo d’água recebe, portanto, uma imensa ajuda de seu próprio adversário. A construção enfadonha e pretensiosa de O centésimo em Roma é eficiente em sua improvisada tarefa de ressaltar os melhores pontos de Sinuca: a concisão, a montagem da narrativa a partir de imagens densamente capturadas, o trato exaustivo com a linguagem. 

Há um parágrafo, já quase no fim do livro, que aglutina esses elementos de forma exemplar: é a primeira e única aparição de Lucas, uma criança que entra na história pelo simples acaso de morar em frente ao local do acidente (o acidente de carro que mata Antônia, a protagonista ausente). É o último parágrafo, o acidente já aconteceu, todos estão chocados e Lucas fala de sua mãe: 

Foi só depois disso que minha mãe olhou para mim. Ela veio e pegou a minha cabeça como se fosse tirá-la do lugar, e eu fiquei feliz e infeliz tudo ao mesmo tempo, ainda mais quando passou os braços pelo meu pescoço e me esganava quase e, sem nenhuma vergonha daquela gente ali na nossa sala, ela começou a soluçar. As lágrimas dela molhavam a minha bochecha, era bem incômodo, mas eu não tinha saída. E assim ela ficou um tempo, me sufocando e dizendo Ai, meu filho, Que coisa horrível, mas ela não esperava que eu respondesse nem nada, e continuava Ai, meu filho, Ai, meu filho, quando Paulo resolveu abrir a boca e disse O que será que foi a última coisa que ela pensou? E acho que isso foi bastante terrível para todos nós. (p. 100). 

Muita coisa acontece aqui. Há, sem dúvida, a força da imagem: diante de uma tragédia, diante da morte de uma menina desconhecida (Antônia não tinha nem 20 anos), destroçada nas ferragens de um carro, a mãe volta-se instintivamente para seu filho, poderia ter sido ele, ou ainda, Deus, jamais permita que algo assim aconteça ao meu filho, etc. 

Há uma liberdade na pontuação, uma liberdade na sintaxe; há, em última instância, uma consciência da maleabilidade dos significantes (e não um uso risível e ingênuo deles, como em O centésimo em Roma). A literatura, se serve para alguma coisa, serve para contar a história da linguagem – não é a linguagem que serve para contar uma história, qualquer que seja essa história. E assim ela ficou um tempo, me sufocando e dizendo Ai, meu filho, Que coisa horrível, mas ela não esperava que eu respondesse nem nada, e continuava Ai, meu filho, Ai, meu filho. 

Essa ourivesaria da linguagem abre a literatura para sua arbitrariedade: esse parágrafo de Sinuca consegue, simultaneamente, suspender a descrença e escancarar seu mecanismo. E isso está posto no jogo mesmo da linguagem: a mesma liberdade que garante sua efetividade como história (e eu fiquei feliz e infeliz tudo ao mesmo tempo) permite, também, que o Crítico observe sua construção metódica, sua musicalidade, e toda a reverberação de textos anteriores, esteticamente fortes, que ocupam as camadas mais profundas de Sinuca. 

Seria preciso dar um gol a cada vez que Sinuca embaixo d’água oferece um parágrafo como esse – não são muitos, mas são o suficiente. Mas paro por aqui e encerro a partida: Sinuca, 3; Centésimo, 0.

PLACAR
Sinuca embaixo d’água 3 x 0 O centésimo em Roma

VENCEDOR
Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon

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JOGO 47 – O centésimo em Roma x Unhas

JOGO 47

O centésimo em Roma,
de Max Mallmann (Rocco / 2010)
x
Unhas,
de Paulo Wainberg (Leya / 2010)

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JUÍZA
Luisa Geisler – Nasceu em 1991, em Canoas (RS). É autora de Contos de mentira (Prêmio SESC de Literatura, editora Record, 2011). Publicou textos em antologias e revistas. Apesar de estudar Relações Internacionais, é cronista da revista Capricho. Passou a adolescência inteira matando as aulas de Educação Física e nunca soube as regras de futebol. Assiste apenas à Copa do Mundo e olhe lá.

O jogo

Eu leio durante as aulas, ok? Ok. Não por desinteresse, mas por péssima abordagem, ok? Ok. Ou seja, em Marketing Mix e Análise Diagnóstico, estou num canto do fundo, lendo. Durante o intervalo, pego meu livro, dirijo-me à segunda ou terceira fila, com meus coleguinhas. Ok? Ok.

Pois eu comecei pelo Unhas (em aula). Quando comecei a ler O centésimo em Roma, no fim da primeira aula, uma coisa que aconteceu:

— Cara, que afudê, que livro é esse, da onde e — já tomaram o livro de mim, leram a orelha, futricaram nas páginas iniciais, perguntaram quem era o autor, se eu emprestaria ao terminar. — É bom mesmo, hein?

Não julgue o livro pela capa um cazzo, ok? Ok. Ninguém falou nada do Unhas e todo mundo o viu também.

O centésimo em Roma é lindo. Claro que a capa de Unhas é bem-feita — tem relevo dos azulejos na imagem, por exemplo —, mas não me empolgou. A imagem (em conjunto com o título e a orelha) me levou a pensar em algo estilo Jogos Mortais. Um assassino que mata pelos pés, sei lá.

Além disso, Unhas deixa a desejar em termos de estrutura narrativa.

O livro de Paulo Wainberg tem uma cena central, um assassino contratado conversando com sua futura vítima, numa sala fechada. Ele conta a essa vítima toda sua história. Por quê? Ele explica que nunca sentiu vontade de glória e reconhecimento, pois são esses os motivos que desmascaram todos os assassinos. Contudo, como um vilão de filme, ele começou a contar à menina toda sua história e sente cada vez mais prazer em fazê-lo. Antes de matá-la, resolveu contar, ok? Ok, ok, vá lá.

Nosso vilão oferece seus trabalhos de “resolver” questões passionais sem solução. Paixões proibidas, com problemas, sabe quais? Pois então. Apenas um contato por celular pré-pago, pagamento antecipado, três meses de prazo e nenhuma garantia. E tem clientes. E ah: atende apenas a homens. O argumento de atender apenas homens é de que “mulheres lidam muito bem com paixões proibidas. Desfrutam ao máximo, mas, ao primeiro sinal de que a vida organizada delas está em perigo, renunciam à paixão, superam o sofrimento (…) e rapidamente se recuperam”. Ok, ok, é o personagem, biriri. Pode soar rude e coisa e tal, mas é um argumento machista, falacioso, sem falar que não me agrada. Ok? Ok. O personagem tem lógica, ele saberia que cada caso é um caso.

Esse argumento (assim como outras idiossincrasias do personagem) não fecha com o perfil todo. Uma hora, nosso vilão fala “pau” e “gozar”; na outra, pede “perdão pelo palavrão”; na outra, diz “pênis”; numa hora, usa “gurias” (p.144), pra passar a narrativa inteira com o “você”. Não convence.

Ok, temos um assassino que mata pequenos “impedimentos” e “problemas” em relacionamentos. Tava com a filha da empregada, se apaixonou pela guria, mas agora as duas tão pedindo um monte de dinheiro? Descobriu que sua irmã – cujo vício de drogas você costumava sustentar, além de transar com a menina – virou stripper? Mata lá. Os casos puxam para o amor incestuoso, chocante, proibido, por aí vai. Ao longo dos trabalhos, nosso vilão cada vez mais sente prazer em planejar e matar pessoas. Ok? Ok.

Mas se bem me lembro, eu falava de estrutura narrativa. O livro vai e volta nessa cena “presente” com a garota de quinze anos, alternando entre flashbacks, discurso direto do protagonista, narrativas com a menina como focalizadora principal, ou também a (ex-) esposa do assassino. O ritmo dos capítulos é delicioso. São curtos, transmitem dinamicidade. Além do que o leitor não se perde, por mais que haja diversas histórias se sobrepondo.

Os flashbacks não se dão ao trabalho de ser didáticos, no sentido de que “este é o momento logo antes de W e daqui a pouco será o momento Z, sabe, leitor? Entendeu?”. Deixam ao leitor a junção da história e são bastante claros.

Contudo, há problemas nessa estrutura, que é boa sim, que ousa bastante e que é levemente mais complexa que O centésimo em Roma. Os tempos verbais nos capítulos são irregulares. Por exemplo, supõe-se que os capítulos sob o ponto de vista de Elisa, a menina, estão no presente, enquanto outros capítulos do livro estão no passado. Contudo, no oitavo capítulo, a estrutura de capítulos de Elisa começa a aparecer no passado. E então, às vezes, no presente. Então, no passado. E, então, há outros capítulos no presente. Outros, no passado. Sem razão, sem ordem. Talvez seja uma crítica deveras cartesiana, mas me incomodou. Soou mais como falha de revisão do que intencional. Ok.

Escrevi um parágrafo inteiro sobre a linguagem, as (longíssimas) falas do narrador, o uso de travessões e então fui ler a resenha passada do Unhas. Digo apenas: idem. Cortei. Sigamos em frente, ok? Ok.

Tem muito de conhecimento sobre formas de matar e como e por que e onde e consequências (por exemplo, sobre a escolha de facas ao invés de armas, métodos pouco convencionais). Há frases polêmicas (“Quem defende a ideia de um direito natural à vida? De onde se tirou isso? Cada nascimento é um acaso” p.104), outras boas (“e achava que fazer a mesma coisa todos os dias era a maneira certa de viver” p. 139). Ou seja, apesar de ter problemas, a história é boa. Há momentos em que compensa ignorar as falhazinhas, tipo nessa coisa toda das frases.

E de boas frases se faz O centésimo em Roma. Max Mallmann usa bem a sua mão de roteirista, porque os diálogos são um acerto imenso. Há um excesso de uso de discurso direto, por exemplo (p. 85):

— Está dispensado, Zopyros.
— Obrigado, senhor.

Mas se compensa com (p. 33):

— Você acha que sou louco?
— Claro que é.
— Louco como meu pai?
— Não conheci seu pai.
— Mas já falei dele.
— Você é mais louco. Casou com uma menina que tem a metade da sua idade.
— Mais da metade. Ela tem dezenove. Vai completar vinte este ano.
— Loura, alta, com a pele da cor do marfim e os olhos azuis como o Mar Tirreno.
— E mamilos rosados. E pêlos púbicos que parecem fios de ouro.
— Não preciso de tantos detalhes.
— Mas eu preciso de você, Rutília.

O romance retrata as peripécias de Desiderius Dolens, legionário romano plebeu com o complicado sonho de subir na hierarquia da “profissão”, ou seja, se tornar cavaleiro. Além disso, ele é endividado e tem um mínimo de conhecidos influentes. Acaba chefiando uma das divisões das cortes urbanas romanas, bem menos prestigiadas. Ok.

A estrutura funciona com duas linhas de tempo. Alternam-se os capítulos com trechos das memórias de Nepos, um subalterno do centurião, escritas em primeira pessoa. Esses capítulos trazem apenas a narração sumarizada, feita com Nepos já idoso, contando da política, lutas, crimes, consequências dos eventos: o futuro mesmo, ou o passado com um olhar do futuro.

Os outros capítulos trabalham com um narrador onisciente em terceira pessoa, que acompanha Dolens nas cenas que merecem destaque, nos momentos de virada para a narrativa.  Revezam-se de forma ordenada, além de que sempre param a narrativa num momento de “o que vai acontecer agora?”, por exemplo (p.176):

 — Para mim, seria uma honra morrer na cruz.
— Que nem um escravo?
— Como Christus.
— Talvez esteja na hora de rever o manual — Dolens fala a Nepos, num tom próximo ao paterno. — Garanto que o cristianismo não seria tão popular se o deus deles tivesse morrido empalado.

… o que incita muito a curiosidade e dá mais vontade de devorar o livro.

Os narradores não se confundem, o livro é bastante organizado e estruturado, a escolha cena versus sumário está ótima. Injetam ar fresco na narrativa.

Além de estar com um bom ritmo, dado pelos capítulos (também) curtíssimos, a história é boa. Nem é tão excepcional assim, mas é bem narrada. Poderia ser uma história terrível se o autor escolhesse os momentos errados como cenas. Momentos de revelação estão bem escolhidos, bem-narrados e a tensão é construída com visível cuidado. Há senso de humor e ironia, os personagens são verossímeis.

A pesquisa feita por Max – além de estar cuidadosamente descrita ao final do livro (confesso que não tive paciência pra ler, mas a outra resenha mostra que há interessados) – se reflete durante o livro inteiro.

A linguagem tem um ou outro excesso, algumas frases poderiam ser cortadas, alguns verbos dicendi exageram, assim como faltam em outros lugares, alguns incisos mal colocados, alguns diálogos são longos demais. Mas, cara…

— É um livro bom mesmo, sério.

PLACAR
O centésimo em Roma 4 x 2 Unhas

VENCEDOR
O centésimo em Roma, de Max Mallmann

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JOGO 46 – Unhas x Sinuca embaixo d’água

JOGO 46

Unhas,
de Paulo Wainberg (Leya / 2010)
x
Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)

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JUIZ
Fabio S. Cardoso – É jornalista e professor universitário. Desde 2005, é colaborador do jornal Rascunho. Já escreveu, entre outros, para o Digestivo Cultural e para o Jornal do Brasil, e foi três vezes juiz da Copa de Literatura Brasileira.

O jogo

A presente etapa deste Campeonato Gaúcho de Literatura tem um jogo de duas escolas, no mínimo, distintas. É o duelo entre Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon, e Unhas, de Paulo Wainberg. De início, cabe observar que essa diferença faz com que o leitor perceba que os dois autores contam com projetos opostos no tocante ao fazer literário. Em outras palavras, leitor-espectador, são livros opostos, o que mostra a diversidade/universalidade de um torneio aparentemente regional – entendam, sou um juiz de outro estado da federação; logo, na minha percepção, a literatura de uma determinada região era passível de receber/sofrer a mesma “angústia da influência”, para citar a expressão favorita de um crítico conhecido. Engano meu. Mea culpa. Pois, definitivamente, não é o caso dos livros que duelam nesse jogo.

Vamos ao texto, leitor, para que a análise não fique por demais subjetiva. Sinuca embaixo d’água se estabelece com uma prosa que atende, para o bem e para o mal, às expectativas do leitor contemporâneo. Assim, o texto articula um sem-número de referências em torno da história de jovens que se encontram no momento de passagem da adolescência/juventude para a vida adulta. As vastas emoções e os sentimentos imperfeitos de uma geração, sua permanente inconstância e seu ardor emocional são colocados à prova diante de um acontecimento definitivo: a morte de Antônia. Em verdade, ela se torna, ainda que postumamente, uma referência, uma vez que é em torno dessa protagonista que os personagens percorrerão a narrativa, de maneira que sua lembrança se materializa não somente nas recordações, mas nas referências musicais, estéticas e sentimentais daqueles jovens.

A certa altura, tem-se a impressão que o livro de Carol Bensimon é demasiadamente embevecido pela lógica da pós-modernidade. Explica-se: são citações aos montes, a ponto de o livro parecer, em determinados períodos, artificialmente cifrado, como se composto conforme um desses manuais oriundos das teses de Fredric Jameson ou de Jean-François Lyotard. Atenção, leitor, a autora não menciona esses pensadores no romance, mas é como se suas ideias estivessem impregnadas em cada página, tamanha é a necessidade de se estabelecer uma cadeia de referências – não se sabe, aqui, se é para dialogar com os seus leitores ou se para impressionar os pares escritores.

Os indícios dessa característica são exemplares como o trecho que segue:

Sou um Axl Rose gordo sozinho num quarto de hotel, um Kurt Cobain na estufa com a arma que toca o céu da boca e, se os caras compensam um fracasso final com um passado brilhante, eu não. Qualquer memória me condena. Puxe o primeiro pedaço de mim. Tenho seis anos, a escolinha é na rua de trás, com gnomos e bichos de gesso no pátio. Risquei o cavalo com giz de cera. Eu queria que ele fosse roxo. Ele era roxo no desenho animado. Recebo atenção especial. A professora pergunta: Como assim nada, querido? (p.14)

A despeito desse artificialismo, espécie de gol contra, o livro consegue superar suas dificuldades, graças a uma costura bem encadeada dos fragmentos. De fato, as partes se transformam em um todo, sendo capaz de reverter o placar, como veremos a seguir. Como síntese, e para começar a falar do adversário, os vícios de Sinuca embaixo d’água não atrapalham um de seus principais objetivos: apresentar narrativas múltiplas tomando como referência um único evento. Para além da capacidade estrutural (arre, academicismo), o texto também se impõe graças à sua prosa bem-elaborada:

Há uma lua quase irreal hoje, que os vidros escuros do prédio 60 refletem. Câmeras, é isso. Câmeras preocupadas com vândalos ou ladrões. Câmeras que nos mostrem o que ninguém estava para ver. Uma entrada na garagem. Não me serve de nada. Então procuro mais e pronto. Apontada para a rua, a câmera se mexe como um pequenino robô do mal. Eu, quase feliz, quase sorrio. (p.49)

Com o fragmento acima, não quero dizer, como eventualmente pode imaginar o leitor, que o texto de Paulo Wainberg é mal escrito. Não é. Da mesma forma como não quero dizer que sua prosa seja desprovida de imaginação literária. Nada disso. Ocorre que, em comparação com o romance de Carol Bensimon, a empresa de Wainberg, Unhas, não resiste. Paulo Wainberg aposta em fazer o romance acontecer a partir de uma cena particular, a partir do detalhe: um assassino diante de sua vítima. É como se o livro, em certa medida, começasse já na metade. E, aos poucos, os leitores somos apresentados à história, que envolve mais do que meros acontecimentos de natureza policial-investigativa. Em vez do thriller de ação, estamos defronte ao thriller psicológico, desses cuja intenção é arrebatar os sentidos e surpreender o espectador. Ocorre que, no caso de Unhas, essa tentativa fica no quase, menos devido à incapacidade de Wainberg em conduzir à história, mais em função da necessidade do autor desfilar suas características como estilista e de escritor com assinatura própria.

De fato, o livro tem o mérito de, com um título minimalista e pouco óbvio, acender a imaginação do leitor – ao menos foi isso que aconteceu comigo. Mas essa impressão não permaneceu, infelizmente. Em verdade, a tentativa de compor um romance lançando mão de tantos recursos – ênfase no caráter psicológico da trama, narrativa policial, voz narrativa ora em primeira, ora em terceira pessoa – não se sustenta, uma vez que essas características se instauram em primeiro plano, tornando-se mais importante do que o romance em si. É bem verdade que o conteúdo se adéqua à forma, mas eis aí um verdadeiro entrave à apreciação do livro. Trazendo à baila a inevitável metáfora ludopédica, é como se o escrete, ciente de sua capacidade de vencer o jogo, estivesse mais preocupado em conquistar a atenção do público e do adversário em relação às suas qualidades e habilidades que acaba por deixar de lado a missão de entrar em campo, atuar bem e vencer o jogo. O resultado é que, mesmo tendo possibilidades de vencer o jogo (e por que não o campeonato, tendo em vista que bateu medalhões em etapas anteriores?), Unhas não faz um jogo à altura do seu rival.

Um exemplo singular dessa possibilidade inalcançada, do quase, está no trecho que segue: 

Abaixou-se e desamarrou a corda, deixando a garota livre. Ela se ergueu e viu o rosto dele, que, naquele momento, parecia bondoso. Ela não podia acreditar que aquele homenzinho fizera aquelas coisas todas. Ensaiou uns passos, mas ele a segurou pelos ombros, dizendo: – Vou deixar você mais confortável, meu bem.

Em seguida, abriu o botão e o zíper das calças jeans e baixou-as, revelando pouco a pouco a região pubiana e sentindo a textura e a maciez das coxas brancas, até deixá-la nua, apenas com as calcinhas. Deu dois passos para trás, jogando as calças para um canto e apreciou o corpo da garota de dezessete anos.(p.156)

Toma-se pela descrição que o autor possui capacidade para emprestar ao narrador o gosto pela minúcia e pelo detalhe. Ocorre que, nesse caso, caberia perguntar: a que se presta esse recurso, a não ser para enfeitiçar o leitor ou mesmo turvar o seu olhar diante da fragilidade dramática/romanesca dessa cena tão banal? Acrescente a isso os capítulos curtos do livro e, voilà, temos um perfeito modelo de narrativa fragmentada, ainda que o objetivo tivesse sido o de produzir certo efeito de sentido no leitor.

Aqui, talvez seja o momento mais adequado de retomar a premissa inicial desse artigo, a propósito da comparação dos projetos literários dos dois autores. Ora, por que essa comparação de projetos é importante? Trata-se de perceber de que forma ambos os livros contemplam as expectativas prometidas ao longo do texto (e isso se nota pela estrutura adotada nos livros, assim como pelo estilo da prosa e pelas vozes dos respectivos narradores). E é exatamente aqui que a vitória de Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon, fica mais evidente, posto que há um sentido, um norte, mesmo que em alguns momentos isso seja contraproducente para com o texto. Em Unhas, as partículas elementares, a despeito do talento do autor, jamais se articulam em conjunto, pelo menos não da mesma forma como o adversário. E o placar é significativo dessa comparação desequilibrada: 3 a 1 para Sinuca embaixo d’água, sendo que o único gol a favor de Unhas foi contra.

PLACAR
Unhas 1 x 3 Sinuca embaixo d’água

VENCEDOR
Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon

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Mais um semifinalista

Com o término dos jogos do grupo 3 da terceira fase do Gauchão de Literatura, tivemos a definição de mais um semifinalista: Anjo das ondas, de João Gilberto Noll.

Até sexta-feira, todos os livros que passam para a próxima fase serão conhecidos. Continue acompanhando!

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JOGO 45 – Todos morrem no fim x Suíte dama da noite

JOGO 45

Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)
x
Suíte dama da noite,
de Manoela Sawitzki (Record / 2009)

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JUIZ
Samir Machado de Machado – Nasceu em Porto Alegre em 1981. Como designer, faz umas capas de livros aqui e ali e mantém um blog sobre o assunto, o Sobrecapas. Como escritor, organizou quatro volumes da coleção Ficção de polpa, dedicada à literatura de gênero, e lançou uma novela, O professor de botânica.  Como roteirista, foi premiado no Festival de Cinema de Brasília, Curta Amazônia, Cine-PE e Histórias Curtas RBS pelo roteiro do curta-metragem Traz outro amigo também, adaptado do conto de Yves Robert. É um dos editores da Não Editora.

Os uniformes

Em tese, capa não garante gol, já que estamos aqui avaliando a obra literária em si, e não a obra enquanto projeto editorial. Eu digo em tese, porque lá fora, no mundo não virtual de pessoas que compram livros em livrarias, a capa se torna o fator determinante de compra. Quando corre o olhar pela prateleira em busca de algo que salte aos olhos, conforme aquilo que está acostumado a identificar como o tipo de capa geralmente associada ao tipo de livro que se gosta, alguns se dão melhor que outros. O tipo de leitor que Suíte dama da noite pede vai perceber a arte clean de Carolina Vaz se destacando na prateleira e, se pegar o livro na mão, vai sentir um papel texturizado com ondulações delicadas tipo uma batata Ruffles, que dão ao conjunto uma leveza curiosa e elegante e que, de certa forma, refletem a elegância da prosa da própria autora. Já o leitor ideal de Todos morrem no fim, o leitor de histórias policiais, terá sorte se perceber a capa escura do livro na prateleira. O livro de Gerbase faz parte da coleção Flores do mal da Editora Sulina (cujo outro volume lançado foi Raízes do mal, de Maurice Dantec) e obedece a um padrão específico com ênfase no fundo preto e no contraste com o vermelho em forma de mancha de sangue. Mas o resultado não é dos mais empolgantes, ainda mais para quem corre os olhos pela prateleira de literatura policial, o livro passa quase despercebido em meio a livros que exploram de modo mais instigante em suas capas os elementos típicos do gênero – o que é uma pena, pois o livro merece maior destaque. Ao menos, o livro de Gerbase tem um papel excelente, macio e leve, que faz com que o livro, que tem o dobro do tamanho do aqui concorrente, pareça até mais leve. Pode não parecer um elemento importante, mas, como estamos falando de um livro físico, não um e-book, o fato de poder lê-lo sem precisar esgarçar o livro faz a diferença, é agradável ao toque e não preciso ficar com medo de cortar os dedos ao virar a página como se fosse de papel sulfite (acredite, já me aconteceu).

Mas chega de conversa de bibliófilo, vamos aos livros. Antes, é bom frisar que o resenhista aqui não entende nada de futebol, aliás detesta o esporte. Então metáforas futebolísticas não se farão muito presentes.

Suíte dama da noite

O livro é centrado em Júlia Capovilla, que logo nas primeiras páginas lida com a notícia da morte de seu amigo de infância (e amante) Leonardo, e os preparativos para ir ao velório. Acontece que Leonardo, pelo que mais tarde descobrimos ter sido uma coincidência do destino na vida de ambos, acabou casando com a irmã de Klaus, marido de Júlia. Ela, por sua vez, é uma mentirosa compulsiva e incapaz de se conectar com as pessoas e o mundo à sua volta. Ao longo das páginas, vamos descobrindo a importância que Leonardo teve em sua vida justamente por ser a única pessoa com a qual conseguiu se relacionar plenamente. A construção da personagem de Júlia é um dos maiores méritos do livro de Manoela Sawitzki, acima mesmo da habilidade com que alterna momentos em terceira e primeira pessoa. Aliado à sua prosa poética e à engenhosidade na criação de metáforas, cria uma personagem desagradável como poucas. Júlia Capovilla é emocionalmente egoísta e autocentrada, assombrada pelo medo de ter herdado a loucura da avó (que chocou a cidade interiorana onde nasceu até ser internada num hospício) e presa a um relacionamento vazio com o marido que se humilha por migalhas de afeto. Alguns dos resenhistas anteriores apontaram a questão da bipolaridade da personagem, mas essa interpretação sinceramente nunca me ocorreu (não descarto, só foi uma coisa que não me pareceu crucial para o entendimento da personagem, talvez mais uma camada). Mas discordo de uma resenha anterior que apontou uma leve predominância de ação interna sobre a ação externa. A ação interna, a meu ver, predomina em absoluto no livro. Mesmo nos flashbacks em que a personagem volta à infância (as melhores partes do livro), o texto é tomado de metáforas e digressões que, em alguns momentos, acabam se tornando um tanto espirais, um tanto redundantes, como que reforçando sentimentos que já estavam bem claros (e me dá vontade de dizer à Júlia Capovilla: ok, minha filha, já te entendi, siga adiante). Aliás, a personagem tem o curioso hábito de se referir a si mesma na terceira pessoa, o que me pareceu melodramático na maior parte do livro, mas ao final tem um sentido.

SPOILER ALERT: se você resistiu até agora à tentação de clicar na barra de rolagem e ver logo de uma vez o resultado (duvido que tenha, eu nunca consegui), pode pensar que a essa altura o jogo a quantidade de elogios já aponta um resultado. Ledo e Ivo engano. Há mais para se falar, mas antes, vamos ao segundo competidor.

Todos morrem no fim

Confesso que peguei o livro de Gerbase com certo olhar desconfiado – primeiro, pela capa pouco atraente, segundo, pelo autor ser mais conhecido como cineasta, e sempre fico com um pé atrás quando vejo um artista acostumado a uma linguagem se aventurar em outra (o que, no final das contas, é só mais um preconceito). Mas, engano: o livro de Gerbase me surpreendeu do começo ao fim.

O começo, no caso, narra o estupro e a tentativa de assassinato de uma professora universitária num campus na região metropolitana de Porto Alegre, que é investigado por Otávio – um detetive decadente, obeso, alcoólatra, corrupto e seboso, com métodos de investigação pouco profissionais, mas, em todo caso, eficientes. Em paralelo, acompanhamos Tavinho, filho de militar e ele próprio um ex-milico, que nutre uma paixão secreta pela secretária do pai, e por esse é chamado ao quartel para assumir, ao lado da moça, uma missão de caráter nebuloso. As duas histórias se alternam, parecem correr em paralelo, mas aos poucos se torna claro que, enquanto o detetive Otávio investiga os podres do mundo acadêmico com o ritmo e o estilo de um romance policial hard-boiled, o ex-militar Tavinho envolve-se numa trama que espelha o sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz, com um verniz noir envolvendo desde uma mulher de caráter ambíguo – Verinha, a secretária cujo envolvimento na história vai tornando-se nebuloso – a uma trama envolvendo um contexto político maior do que a capacidade de Tavinho em resolvê-lo. Porém – e aqui vai um leve spoiler, se não quiser saber aconselho pular para o próximo parágrafo, senão, segue o baile –, lá pela metade do livro, um detalhe crucial vai tornando-se cada vez mais claro: Tavinho e Otávio são a mesma pessoa, separados por 30 anos de desilusões. Talvez fosse óbvio desde o começo, não sei, para mim não era, e foi com certa surpresa empolgada que percebi – como numa boa história de detetive, algo que estava ali na minha frente o tempo todo, mas que só foi sendo revelado aos poucos. Desse ponto em diante, a história não muda, mas o sentido que damos a ela sim: Gerbase segue com suas duas tramas paralelas, mas no espaço alternado entre um capítulo e outro, vamos compreendendo como aquele jovem ingênuo e idealista transformou-se na aberração física que é o detetive Otávio, “tentando lembrar-se do homem que um dia foi”.

Uma conclusão

Dois livros bastante opostos. A obra de Manoela Sawitzki privilegia a linguagem, a de Gerbase, o enredo. Ainda que nem por isso o enredo do primeiro livro seja menos complexo, ou a linguagem de Gerbase – limpa e objetiva, como cabe a uma história policial – seja pobre ou superficial, pelo contrário. E ambos desenvolvem personagens complexos, ainda que Gerbase leve vantagem ao compor uma gama de personagens distintos, alguns bastante superficiais, mas marcantes, como o sem-número de suspeitos do crime, outros suficientemente complexos e intrigantes para colocar o leitor a imaginar suas reações à trama nos momentos em que não participam dela, como o pai do protagonista, o Tenente-Coronel Ribeiro, e seu pragmatismo moral desconcertante.

Existe outro fator, é claro. Diferente de um jogo de futebol real, onde dois times jogam e ao juiz cabe apenas apitar faltas e aplicar regras, literatura não se encaixa em padrões pré-estabelecidos de qualidade, não há requisitos a serem preenchidos num checklist do bom livro que o tornem automática e universalmente “bom livro” (mesmo que haja muitos que pensem assim). No fundo, é tudo uma questão de gosto pessoal dos leitores. E, nesse caso, o trabalho de Manoela, mesmo com méritos literários muito claros, onde alguns verão lirismo, eu vejo descrições repetitivas de sentimentos num tom grandiloquente que me aborrece e, às vezes, me entedia; enquanto o livro de Gerbase, como todo bom livro – numa metáfora vulgar que certa vez usei para descrever o ritmo de um bom best-seller –, te agarra pelas bolas e te arrasta até a última página, com um ritmo dinâmico, um estilo fluído e que em nenhum momento cai nas armadilhas da linguagem pobre e das fórmulas estilísticas da literatura comercial.

Considerem, no caso do livro de Manoela, como um gol legítimo anulado pelo juiz (o meu gosto pessoal, no caso). Quanto ao livro de Gerbase, me fez cuidar as horas para que passassem logo e eu tivesse algum tempo livre – no ônibus, no almoço, antes de dormir – para me isolar e ler mais algumas páginas, e isso, para mim, é um autor marcar um gol de encher os olhos.

PLACAR
Todos morrem no fim 3 x 2 Suíte dama da noite

VENCEDOR
Todos morrem no fim, de Carlos Gerbase

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JOGO 44 – Suíte dama da noite x Anjo das ondas

JOGO 44

Suíte dama da noite,
de Manoela Sawitzki (Record / 2009)
x
Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)

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JUIZ
Rodolfo Viana – Escreve sobre livros para a revista Vida Simples e é editor do portal Papo de Homem. Gosta tanto de literatura que pretende nunca escrever um livro. Não manja de futebol, mas torce para o alviceleste Marília Atlético Clube.

Os autores

Eu nunca tinha lido algo de João Gilberto Noll, autor que vim a saber ter ganhado dois prêmios Jabuti. Também não conhecia Manoela Sawitzki, nome de destaque no teatro que já arrebatou o Prêmio Açorianos de Melhor Dramaturgia. Assim, apesar de Noll ter uma tradição em romances e Sawitzki estar apenas no seu segundo título do gênero, dediquei a ambos a mesma leitura curiosa, o mesmo olhar de quem encontra estranheza e é fascinado por ela. Ambos aqui têm o mesmo peso e nenhuma história.

O jogo

Suíte dama da noite 

Júlia é uma mulher à espera do intraduzível. Com o vazio da perda, ela tem aquela tristeza que, muito provavelmente, alguma palavra alemã possa definir com exatidão. Os alemães têm expressões para quase tudo o que é indefinível. Se escrito em alemão, Suíte dama da noite não faria sentido de existir.

O romance de Manoela Sawitzki começa com uma morte. Leonardo, outrora seu amor e agora um quase concunhado, não mais existe do lado de cá. Com o falecimento, Júlia perde seu chão – e quase sua sanidade. Dividida em momentos de depressão e instantes de exaltação, Júlia nos dá a impressão de quem, na próxima página, perderá de vez o tino.

Para chegar ao âmago da dor, a autora mescla os dramas íntimos da personagem – inclusive durante sua vida, e não apenas depois da morte de Leonardo – com o mundo exterior. Um exemplo perfeito: a versão eufórica de Júlia compra flores que sempre morrem antes do tempo.

Mas algumas digressões não se justificam – não é uma opinião baseada na máxima “Escrever é a arte de cortar palavras”, mas sim no fluxo de leitura. “Não saberia dizer-lhe adeus de novo”, por exemplo, começa com a ida de Júlia à Capelinha do Perpétuo Coração. Depois do primeiro parágrafo, 62 linhas tentam explicar por que sua alma é “maldita” – o que não faz diferença no desenrolar da trama. E só então voltamos ao tempo atual, às homenagens ao falecido.

Outra falha é a contradição:

Parabéns, Júlia Capovilla! Hoje você não enlouqueceu!

Ela mesma tratava de prestar contas. Registrava o próprio percurso desde o instante em que acordava, até que pudesse dormir outra vez. E era lá, quase desmaiada sobre a cama, o cabelo desfeito, a boca pálida, a pele cheirando a rosas de banho recente (limpa, tão limpa…), que procurava por qualquer indício de que pudesse ter enlouquecido naquele dia.

Desculpe-me, Júlia Capovilla, mas se você passa o dia, do acordar até o dormir, contabilizando sua sanidade – ou a falta dela –, sim, você enlouqueceu.

Anjo das ondas 

Aos 15 anos, Gustavo está na fronteira da juventude, naquele exato ponto em que um homem ainda não é um adulto, tampouco um garoto. Em princípio, poderíamos lançar mão do discurso “ele está na fase de descobertas”. Seria um discurso errôneo: descoberta implica uma prévia ignorância. Gustavo, por sua vez, sabe o que é sexo – apenas nunca o experimentou. É o fim da ingenuidade, substantivo que tem contornos de redenção do qual Gustavo não mais goza.

A urgência de se tornar um homem feito – ele, criado sem a figura paterna por perto e estranho de sua mãe – e o desejo de remoer resquícios da infância convivem nem sempre em harmonia nas falas e nos pensamentos de Gustavo. São dois pontos opostos, mas que estão posicionados nas extremidades da mesma linha torta. Isso demonstra a contradição da qual todos nós já experimentamos nesta vida: os ritos de passagem são universais. Assim, o tema de Anjo das ondas se torna atemporal, se faz uma parte do drama humano. É também inexato e quem quiser explicá-lo, falhará.

Noll foi perspicaz em não querer delinear tal rito de passagem, mas falha ao apresentar conflitos complexos demais para um jovem de 15 anos. Por exemplo:

Seu corpo ainda exalava o cheiro de Cristina. Pensou que seria bom que os dois pudessem morar juntos, às vezes dividir a mesma cama, degustar quem sabe o macarrão que ele ainda não aprendera a cozinhar. 

Aos domingos faria o churrasco… Ao espalhar o sal grosso sobre a costela, veio-lhe a ideia de um filho. Provar do sangue do meu sangue. Com aquele pensamento sentiu-se forte e previdente, alguém a calcular seu plano de imortalidade. 

Correu até o espelho, viu uma face meio diluída, indeterminada, com bastante lugar para que pudesse desenhar na cara oca o seu futuro.

Pensar em ter filho aos 15 anos é pouco comum, e mais raro ainda é pensar em ter um rebento como forma de “imortalidade”, de perpetuação de si mesmo.

Mas se falha ao exceder na densidade das ponderações juvenis, Noll acerta a mão ao não tentar explicar o rito de passagem, como dito acima, mas sim a apresentá-lo tal como é: confuso. Até mesmo na escrita: ora o narrador se mostra na primeira pessoa, ora na terceira. A intenção é separar o sujeito que foi do sujeito que é, ou seja, o menino do homem. Assim, peca na fluidez, mas por um bom motivo. É uma desobediência narrativa que seduz.

PLACAR
Suíte dama da noite 1 x 3 Anjo das ondas

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

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JOGO 43 – Anjo das ondas x Todos morrem no fim

JOGO 43

Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)
x
Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)

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JUÍZA
Marianne Scholze – Nasceu em Porto Alegre, em 1975, em pleno Dia da Árvore – o que talvez explique astrologicamente a adoração desde sempre por livros. Jornalista, trabalha há 15 anos no Grupo RBS: metade desse tempo na cobertura esportiva, a outra metade na área cultural. Ainda tenta se convencer de que foi por isso, e não por ser prima da organizadora, que veio parar aqui, à beira do gramado, com um apito na mão. Também trabalha como revisora freelancer para a editora L&PM e é mãe da Cecilia, de quase três anos – e tão ou mais fanática do que a mãe por contar e ouvir histórias.

Pré-jogo

É um mundo injusto, eu sei. Mesmo assim, não posso deixar de choramingar minimamente a respeito da injustiça de ter de apitar um jogo tão díspar. Não é nem uma questão de primeira rodada da Copa do Brasil, em que a desigualdade de qualidade é tão gritante que dois gols de diferença fora de casa já eliminam o jogo de volta. Não. Aqui, a desigualdade é quase que de épocas e estilos de jogo – enquanto Noll traz a elegância e a sutileza do futebol-arte (que, apesar da plasticidade, não é unanimidade entre os torcedores em busca dos três pontos), Gerbase apresenta a objetividade e o jogo tático apertado na marcação do futebol de resultados (que faz boa parte do público ressentir-se da falta de dribles e passes mais trabalhados).

Dá mesmo para comparar? Bom, eu vou tentar.

Aquecimento

Ao julgar os livros pelas capas, a vantagem vai para o policial de Gerbase, com sua clássica combinação em preto e branco e detalhes em vermelho. Romance sobre um adolescente, o livro de Noll vem com, bem, um adolescente na capa e traz o título em fonte que lembra um rabisco também juvenil.

Se por fora Todos morrem no fim conquista pela estética mais condizente com o conteúdo (além de um par de óculos quebrados, há uma mancha em vermelho que lembra uma poça de sangue e que reproduz a silhueta de um – arghs! – rato), por dentro dá um cansaço só de olhar para as páginas. Vamos combinar que Times New Roman pode até tentar remeter a um clima noir de máquina de escrever, mas é uma fonte bem chatinha de ler – não que a Dolly usada em Anjo das ondas seja das mais “limpas”, mas pelo menos a margem e o entrelinhamento maior ajudam o livro a “respirar”. Isso sem falar nas páginas escuras com apenas alguns traços em branco que separam os capítulos no livro de Noll, deixando a edição ainda mais bonita e arejada.

Digamos que Gerbase ganhou o pontapé inicial, e Noll escolheu o lado do campo para começar a partida.

Pré-jogo

Pode ser tique de revisor, mas andei assuntando por aí e concluí que não é SÓ tique de revisor: livro com problemas de revisão desanima a maioria dos leitores. Nesse caso, pior para Todos morrem no fim: são tantos erros de revisão e de natureza tão variada que muitas vezes passei do mero desânimo à irritação – mas aí, admito, pode ser meu lado virginiano falando mais alto. Fora as questões gramaticais e até de digitação, a certa altura é mencionado um orelhão em Porto Alegre localizado na esquina da Ipiranga com a Freitas e Castro – duas ruas que correm em paralelo no bairro Azenha.

Já entrou em campo pendurado por dois cartões amarelos.

A partida

Ainda um adendo antes do início do jogo: foi minha primeira incursão na obra literária de ambos os autores. Nunca havia lido nada nem do Noll, nem do Gerbase. Acredito que isso tenha me mantido mais isenta para analisar os livros em si, isoladamente do conjunto literário construído por cada um.

Dito isso, vamos ao jogo na ordem em que os li.

Anjo das ondas

Trata-se de 122 páginas, tranquilamente encaráveis em uma noite de chuva. O tom do que vem a seguir já nos é dado pelo prefácio, assinado por Marcelino Freire e intitulado Mergulho, em que um fluxo de consciência semelhante ao da narrativa de Noll é utilizado para apresentar o próprio autor gaúcho.

Sou uma fanática pela primeira frase de qualquer obra, mas nesse caso o primeiro parágrafo inteiro é de uma graciosidade só:

Tinha o mesmo sinal do pai na face. Aos pingos de suor o guri dava cambalhotas e sorria para tudo e para nada. Uma bem-aventurança lhe aflorava aos lábios e ele não esboçava nenhuma intenção de dissolvê-la.

Gol do Noll, já assim, de cara.

À medida que o livro avança, somos apresentados a esse tal guri, Gustavo, que vive com a mãe e a avó em Londres e decide passar um tempo com o pai no Rio de Janeiro ao completar 15 anos. Rito de passagem, romance de formação, tudo isso se encaixa ao romance e é como você, leitor contumaz, está imaginando – só que diferente. Porque a narrativa muda da primeira para a terceira pessoa com uma naturalidade que não permite discernir entre narrador e personagem; porque às vezes o fluxo de consciência é tão intenso que é preciso voltar atrás e reler algumas linhas para captar o que não foi possível ao primeiro passar de olhos; porque às vezes nem isso é o suficiente para entender 100% o que se passa.

É um romance sobre um adolescente, mas não é para um adolescente. Ao contrário, as reflexões, os questionamentos, os anseios e as angústias de Gustavo compõem um quadro que a maioria dos adultos talvez nunca tenha tido o tempo ou a coragem de contemplar. O contraste entre o frio e o calor das duas cidades, entre o sucesso da avó, cantora lírica em solo britânico, e o fracasso do pai, escritor pé-rapado na areia carioca, entre a infância e a vida adulta que se descortina à frente de Gustavo, tudo é tratado com tal intensidade – e profundidade – que fica fácil se perder na narrativa e até mesmo duvidar da própria leitura: confesso que me peguei pensando se havia entendido mesmo o final, quando Gustavo encontra outro Gustavo, homônimo que teria sido seu colega de colégio na infância. Ou não? Ou seria um alter ego? Ou fruto da imaginação do garoto? Ou a manifestação de um desejo ainda não totalmente compreendido?

No início, essa dúvida me deixou ressabiada em relação ao livro. Depois de alguns dias, abracei-a como uma qualidade intrínseca da literatura: a de fazer pensar, de permanecer com a gente e de martelar na nossa cabeça mesmo depois de lida a palavra “fim”. Então, pronto: mais um gol do Noll.

Todos morrem no fim

Confesso que já cheguei meio cansada à leitura ao espiar lá no fim: 326 páginas naquela fonte Times, com diálogos entre aspas em vez de travessões, não seria bolinho. Mas não é que me surpreendi?

O ritmo ágil da história permite um folhear constante e interessado das tais 326 páginas, mesmo com um estilo de narrativa que não é o meu preferido: o de duas histórias em paralelo que, sabe-se desde o início, terão algo em comum no final. Uma delas situa-se no passado, com os verbos nesse tempo indicando constantemente onde estamos; a outra se passa no presente, e novamente somos lembrados disso pelo tempo verbal. Admiro horrores a atenção a detalhes formais, então aí vai: um gol para o Gerbase.

Ah, sim. A saber, as duas histórias: filho de um militar, durante a Ditadura Tavinho envolve-se no sequestro de dois uruguaios por parte da polícia brasileira – em uma reprodução gritante do caso real envolvendo Lilian Celiberti e Universindo Diaz em 1978. De volta à atualidade, o inspetor Otávio concentra-se em solucionar o estupro de uma professora universitária em Sapucaia do Sul tanto quanto se divide entre nacos de lanches entupidores de artérias, longos goles de cerveja e pequenos favores remunerados solicitados a uma prostituta decadente. É de longe o personagem mais carismático do livro, ainda que a certa altura toda essa gordura do submundo escorra pelas páginas – cansando um pouco a paciência mesmo de uma fã de anti-heróis e romances noir como esta aqui.

Pela metade do livro, decifrei o elo entre as narrativas (e acho que mosqueei, porque dava pra ter percebido bem antes), e a solução do caso do estupro me pareceu cristalina desde a primeira aparição dos personagens culpados na trama. Não que eu acredite tanto assim na minha própria capacidade detetivesca: desconfio é da capacidade do autor em manter o mistério até o final.

Enfim, como o apito está em minhas mãos, decreto assim o jogo encerrado.

PLACAR
Anjo das ondas 2 x 1 Todos morrem no fim

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

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Definidos primeiros semifinalistas

Então é isso, amigos ligados no Gauchão de Literatura! Com a publicação do jogo 42, está encerrado o grupo 2 da terceira fase do campeonato.

Com isso, já sabemos qual será o primeiro embate da semifinal:
História de não acontecer x Três traidores e uns outros

Mas segurem-se nas poltronas! Ainda temos muitas emoções reservadas para as próximas duas semanas, com os jogos dos grupos 3 e 4 e a definição dos outros dois finalistas.

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JOGO 42 – O gato diz adeus x Três traidores e uns outros

JOGO 42

O gato diz adeus,
de Michel Laub (Companhia das Letras / 2009)
x
Três traidores e uns outros,
de Marcelo Backes (Record / 2010)

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JUIZ
Carlos Henrique Schroeder – É romancista, contista e dramaturgo. É autor de A rosa verde (UFSC), Ensaio do vazio (7 Letras) e As certezas e as palavras (Editora da Casa), vencedor do Prêmio Clarice Lispector 2010 e finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.  Em 2010, ganhou a Bolsa Funarte de Criação Literária. É editor da Editora da Casa/Design Editora e curador do Festival Nacional do Conto. www.carloshenriqueschroeder.com.br

Antes da bola rolar

Segundo o escritor argentino Alan Pauls, “todo relacionamento já contém em si a própria separação”. É justamente esse o tema que permeia Três traidores e uns outros, do Marcelo Backes, e O gato diz adeus, do Michel Laub. E essa é a única coincidência. Dois livros tecnicamente distintos, e graficamente também. O livro de Backes segue o padrão da editora Record: livros com capas duvidosas, o miolo sempre com o mesmo projeto gráfico, o mesmo espaçamento, e aquela impressão lavada. Já a Companhia das Letras vai um pouco melhor nesse quesito, caprichou na capa e miolo de Laub, com as letras grandes e coloridas ocupando quase toda a capa, e um miolo arejado. Uniforme não ganha jogo, mas pode conquistar torcedores.

Laub Futebol Clube x Clube de Regatas Backes

Ao leitor desavisado, que não conhece as artimanhas de Laub, é bem provável que ache as primeiras páginas de O gato diz adeus bem mornas, uma espécie de Amós Oz ou Julian Barnes diluído. E esse mesmo leitor pode pensar: duvido que esse livro se sustente, com esses quatro personagens (Sérgio, Márcia, Roberto e Andréia), e sem cenários definidos, datas ou referências. Mas Laub domina muito bem as quatro vozes narrativas, que se contradizem, se sobrepõem, se alternam em pequenos trechos. Bem cadenciado, O gato diz adeus cresce muito do meio ao fim (a mesma coisa acontece nos livros anteriores de Laub, e com uma potência assustadora no seu último livro, O diário da queda). Laub também sabe esculpir suas elipses: o livro é sobre um aluno que rouba a mulher do seu professor? Talvez. Ou sobre um professor que empurra sua esposa para seu aluno predileto? Talvez. Ou sobre uma mulher que acredita no sofrimento como redenção? Talvez. Ou sobre como para algumas pessoas o prazer só é obtido pela dor e humilhação? Talvez. Ou ainda sobre como uma ínfima atitude pode destruir ou construir uma vida? (tema recorrente na obra de Laub). Talvez. Ou como a depressão pode passar despercebida? Talvez. Sim, o livro é carregado de perguntas e desvela um verdadeiro triângulo amoroso, onde todos os vértices vivem na dicotomia amor/ódio. E tudo sem uma espécie de “falsificação” e de “adornamento” da questão, como diria nosso amigo Sebald. Outro grande mérito do livro é o que eu chamo de efeito armlock, algo que aprendi quando suava meu quimono nas aulas de jiu-jítsu. O armlock é um dos golpes mais precisos do jiu-jítsu, e um dos primeiros ensinados. É a junção de cinco ou seis movimentos mínimos, praticamente sem esforços, que culminam num golpe gracioso e potente. E Laub é perito nisso, sabe como poucos usar movimentos mínimos para enredar o leitor, e constrói várias situações armlockianas dentro da narrativa.

Bom, vou ilustrar isso, para agradar o Santo Sebald.

http://www.youtube.com/watch?v=ZhWmROcEmWw

Três traidores e uns outros é um acerto de contas, no sentido cheeveriano mesmo. Um tradutor-escritor um tanto misógino, outro tanto misósofo, lavra suas memórias: glórias sexuais e tragédias amorosas. É alguém que rodou o mundo, mas a catraca da experiência empírica não girou. “O aqui dentro não muda nem um pouco só porque o lá fora muda”.

Estão lá a filósofa tradutora, a empregadinha do amigo poeta, a autora consagrada, a noiva de Toz, a primeira esposa, a noiva de Porto Alegre, e entre bocetas úmidas e amores secos paira Nimrod, o tradutor consagrado, renomado internacionalmente, que termina seus dias numa dessas cidadezinhas do interior, amargurado e sonhando com ninfetinhas. “Tudo passa, na realidade, por isso, quando a gente conta, tudo volta e vira agora, tudo acaba sempre sendo agora…”

O narrador é arrogante, talvez Backes também seja, mas isso é bom, empresta ao personagem a verossimilhança necessária. E embora o narrador alegue que o ambiente não o influencia, o grande mérito do livro está nessa brincadeira, a multiplicidade do narrador perante seu ambiente. Outra grande sacada é a metáfora da tradução, que permeia todo o livro: “Também lembrei a ela que nós, os tradutores, registramos de maneira eterna a precariedade de nossas leituras. Que somos leitores com um gigantesco poder de interferência, por assim dizer; e que somos traidores, mesmo quando não queremos e, mais que isso, que às vezes temos de trair para ser fiéis de verdade”.

Os cinco capítulos de Backes lembram outro golpe de jiu-jítsu, o triângulo de mão. Uma manobra que precisa de rapidez e força, e combina muito bem com este verso do livro:

dói tanto ver
quem menos ama
tem mais poder

Triângulo de mão (Santo Sebald, rogai por nós!)

http://www.youtube.com/watch?v=77aFTNk_Lfw

O jogo: a luta 

1 x 1: em menos de cinco minutos de jogo 

Sim, essas equipes tinham plenas condições de se enfrentarem na final, mas quis o destino que uma delas dissesse adeus antes. E para mostrar força, ambas equipes vieram com tudo nos primeiros cinco minutos. Um golaço para cada. Os personagens são dois tradutores que vivem a angústia de trair a palavra, a cada momento. Personagens bem construídos rendem gols rápidos. O gol do Laub é aquele classudo, dribla um, dribla dois, passa pelo goleiro e dá só um toquezinho. O do Backes é aquele gol brucutu mesmo, bate e rebate na área, bola alta, guerra aérea e literatura, cabeçada e pronto, rede estufada. 

2 x 2: a marca da igualdade

É rapaziada, o Laub tem o efeito armlock na manga, tem iniciativa, foi lá e marcou mais um golaço, com cinco ou seis toques suaves chegou na cara do gol e tim, como Messi, com classe, gooolllll!!!! O time do Laub joga bonito, toque de bola, é o verdadeiro espírito do futebol brasileiro. Já o Backes tem um time compacto, de contra-ataque, dunga-style. Opa, derrubou na área é pênalti, goleiro de um lado e bola do outro. Goooolll!!! O futebol de resultados mostra serviço, Backes encosta, tirou o famoso triângulo de mão da cartola.

3×3: pancadaria no campo 

A ironia do Laub é sucinta, a do Backes, aberta, mas ambas são perfeitas. Um gol de bola parada para cada, muita discussão entre os jogadores, o juiz expulsa um de cada time, os ânimos se alteram, a torcida invade o campo, pancadaria, a partida reinicia 30 minutos depois.

4×3: nem sempre…

O torcedor brasileiro sabe muito bem disso: nem sempre o time que joga mais bonito vence. Ou seja, realmente o gato diz adeus. Backes marca um gol no finalzinho do segundo tempo. Aquele gol que ninguém espera, o gol da superação. Backes teve um pouco mais de fôlego, seus personagens ficaram por mais tempo na minha memória, ganharam sobrevida e força com o passar dos dias. Durabilidade não é primazia só da Duracell não, rende pontos na literatura, pontos e goooollllll!!!!

PLACAR
O gato diz adeus 3 x 4 Três traidores e uns outros

VENCEDOR
Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes

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Terceira fase do Gauchão se desenrola

A terceira fase do Gauchão de Literatura está ocorrendo desde o dia 7 de novembro. Para quem notou, estamos publicando três jogos por semana (às segundas, quartas e sextas-feiras). A cada semana, será definido um semifinalista.

No dia 11 de novembro, com a publicação do jogo 39 e término dos jogos do Grupo 1, tivemos a revelação do primeiro semifinalista da edição 2011: História de não acontecer, de Reges Schwaab.

Amanhã, publicaremos o terceiro e último jogo do Grupo 2, definindo quem será o oponente de História de não acontecer na semifinal. Fiquem de olho!

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