JOGO 5 – Contestado – A guerra dos equívocos x Dois passos antes da esquina

JOGO 5

Contestado – A guerra dos equívocos,
de Walmor Santos (Record / 2009)
x
Dois passos antes da esquina,
de Marcos Fernando Kirst (AGE / 2009)

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 JUIZ
Marcelo Benvenutti
– Porto-alegrense nascido em 1970. Escritor, contador (modo pagando as contas) e também formado em Publicidade (mas nunca exerceu, não o julguem). Publicou Vidas cegas (Livros do Mal, 2002), O ovo escocês (Edições K, 2004), Manual do fantasma amador (Edições K, 2005), Arquivo morto (Kafka Edições, 2008), entre outros libretos apócrifos, e participa da antologia Geração Zero Zero – Fricções em rede, organizada por Nelson de Oliveira (Língua Geral, 2011). Tem uma coluna quinzenal no Diário Gaúcho, invariavelmente escreve sobre o Internacional, tem alguns blogues perdidos, outros abandonados, já se aventurou em ser editor (Edições K) e atualmente prefere se dedicar a escrever sobre Literatura Pop em http://escritorpop.blogspot.com. Responde por mafama@gmail.com e ainda tenta escrever um romance (na verdade, dois). Mas tudo isso ele faz quando seu filho Lorenzo deixa. Ou seja, quase nunca.

O JOGO

O destino reservou a este descendente de italianos (em parte, aviso, Portugal e o pelodurismo têm sua culpa nesta história aqui) ser o juiz de um embate tedesco. “Os tedeschi”, dizia um tio meu quando queria se referir aos “alemão”. O primeiro time alemão, aqui representado por Otto Brund, o ator principal de Dois passos antes da esquina, é um recém-viúvo se adaptando à vida solitária reservada a um homem de 80 anos que se vê condenado após a viuvez. Entre visitas ao túmulo da falecida, uma de suas filhas tenta auxiliá-lo a situar-se, enquanto Otto descobre facetas desconhecidas de sua esposa. Otto é o típico descendente de alemães do interior gaúcho. Protestante não praticante, militar aposentado, seco, praticamente sem paixões. Viveu em quase todas as cidades onde existem postos militares na extensa fronteira brasileira do Rio Grande. A doença e a morte da mulher não causam nele tanta confusão quanto as visitas que faz a uma espécie de guru-curandeiro da cidade, Salarini, um “gringo” perdido, que, entre místico e homeopata, receita chás e ervas para Otto. É a ligação do cético Otto, a quem nem religiões ou ideologias interessam, ao mundo das superstições e crendices. Aos poucos, se estabelece uma ligação etéreo-literária entre o viúvo e a morta. A dedicada dona-de-casa de um militar sempre ocupado era amante da literatura e, moribunda, relia O nome da rosa, de Umberto Eco. Otto encontra o livro com o marcador e daí em diante lê o em voz alta o restante do livro em frente ao túmulo de sua esposa. Ele, que sempre recorria à história bíblica de Jonas, sentia-se como o próprio, infiel e descrente, a esperar que a baleia lhe digerisse e questionando o porquê daquilo tudo. Obviamente, não contarei o resto da história, se quiserem saber, leiam. Recomendo.

Kirst muitas vezes soa lúgubre, pra não dizer saudosista, como se o romance fosse um misto de reminiscências do velho Otto com recordações próprias, o que é um bom sinal, pois cria empatia do leitor com um personagem verdadeiramente difícil e pouco simpático. Otto se parece com alguns destes velhos que o Clint Eastwood fez depois da década de 1990. Duro, os olhos parados, pensativo. A linguagem, apesar de abusar do pretérito mais-que-perfeito (lugar-comum da narrativa em terceira pessoa), o que, confesso, me irrita muito, é direta e flui. O vocabulário não abusa de firulas, o que pra mim sempre conta a favor. O romance, apesar de curto, as clássicas 128 páginas exponenciais de 2 (256 vem na sequência e é o número aproximado do seu oponente, o que nos faz pensar por que escritores norte-americanos adoram as 500 e poucas, próximas de 512, sequência na potência de 2), é denso. Não fica resvalando na embromação que muitos escritores caem para se dizerem romancistas superiores em contraposição aos reles contistas (aqueles que supostamente escrevem pouco).

Um sujeito como eu, que praticamente só escreveu contos, controla-se ao ler um romance. Minha intenção primeira é cortar. Cortar. Resumir parágrafos em frases, capítulos em parágrafos, romances em contos. Muitas vezes, parágrafos inteiros se parecem com prepúcios inúteis e peles sobrando. O acúmulo de informações sobrepostas (aquelas que  imagino, mas não escrevo) é a fimose da literatura, estrangulando a história principal. Depois desta (des)necessária explanação médico-literária, Dois passos me agradou por aquilo que poderiam parecer defeitos: a destreza em eliminar inutilidades, uma certa secura e um tom por muitas vezes fantasmagórico e fabuloso, como antigas histórias que se contam pras crianças antes de dormir, um homem contando histórias para sua mulher morta. O amor que se esvai no além-vida.

Contestado é um trabalho braçal, primeiramente. O autor expõe a bibliografia consultada ao final e faz deste primeiro volume (o segundo se anuncia como A fé no poder) um calhamaço de informações sobre essa guerra civil que abominou o planalto catarinense cerca de 100 anos atrás. Alterna as recordações do moribundo Frei Rogério Nehaus, o alemão do adversário, figura histórica e verdadeira, dos tempos do Contestado e das desventuras de seu afilhado religioso, um certo Marcolino, fictício, que depois assumiria o nome de Germano. Assumo que tive dificuldades ao ler o prólogo. Uma longa exposição de 20 páginas para situar o leitor no contexto histórico, político e econômico do romance. Sou adepto de que, se o autor considera necessário informar contextos, que o faça enquanto conta a história. Tenho pavor de prólogos introdutórios extensivos, sendo inclusive Umberto Eco de Otto Brund, e Erico Verissimo, entre outros, os responsáveis pelo meu ódio a certos tipos de romances. Mas, tiro dado, bugio deitado. Segui em frente. Ainda bem. Por certo, deveria dar chance a outros livros. Ou pular o prólogo. O certo é que, fosse eu um ateu retórico, desses tão em voga hoje em dia, acharia a história sacal do início ao fim. Não é o meu caso.

Dentro da visão dos personagens, o sincretismo religioso, o paganismo dos caboclos da Serra Catarinense misturado ao cristianismo resultou em uma seita de adoração a um certo São José, ou João, Maria, que ia e vinha e incorporava em uma nova pessoa, a pregar pela bem-querência dos pobres contra os poderosos da ferrovia americana ou do governo do Paraná, justo que o território era disputado pelos dois estados desde a criação do Paraná, estado este criado para impedir a união de liberais paulistas e gaúchos. Toda essa ronha explodiu, claro, do lado mais fraco. Milhares de pessoas desempregadas, famintas, sem terra, sem eira nem beira, a peregrinar atrás de santos, desacreditados pelo alto clero e esquecidos pelo governo central, jogados à mercê do coronelismo interesseiro e o capitalismo selvagem. É um romance histórico (imagino eu que todos são. Se ainda não são é porque não envelheceram, mas, enfim…), quase um faroeste miserável logo ali, nos vales profundos de Santa Catarina. O verdadeiro faroeste caboclo.

Walmor Santos se utiliza de todos os dados disponíveis para jogar o leitor em meio ao desejo sexual reprimido, a amizade sincera entre dois homens, frei Rogério e Germano, e a não aceitação do frei pela santidade a ele imposta no seu pré-morte. Para ele, o trabalho do franciscano está junto ao povo, antecipando o que depois viriam a chamar de Teologia da Libertação, a igreja para os pobres, o que nada mais é que uma sequência sempre quebrada pelos bispados e o Vaticano. O autor não é condescendente e deixa bem claro os defeitos e os erros da Igreja Católica, justo que este é o volume sobre o poder da fé, na dita guerra civil que assolou nosso estado vizinho e da qual não fazemos muito; se fosse no Planalto Gaúcho, certamente existiria uma cavalgada dos contestados, como é de praxe em nossa cultura. Cultuar o fracasso. Penoso, o autor carrega a história até o fim que já prevemos. Não existem vencedores quando a estupidez é a conselheira.

Mas, neste jogo, infelizmente, deve sair um vencedor. Pela objetividade, os dois merecem um gol cada. Dois passos toma mais um por excesso de pretérito mais-que-perfeito, Contestado leva outro pelo prólogo tedioso. O jogo termina em 2 x 2 e vai para uma torturante prorrogação. Não pode existir empate. O pragmatismo protestante de Otto insiste no ataque e faz mais um. São Francisco faz um milagre e empata no último minuto dos 30 de acréscimos. O jogo vai para os tiros livres. E nos tiros livres, curto e grosso, Dois passos antes da esquina vence por 5 x 4. Deus não perdoa. O amor sempre vence o ódio. Nem que seja nos pênaltis. Amém.

PLACAR
Contestado – A guerra dos equívocos (4) 2 x 2 (5) Dois passos antes da esquina

VENCEDOR
Dois passos antes da esquina
, de Marcos Fernando Kirst

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6 respostas para JOGO 5 – Contestado – A guerra dos equívocos x Dois passos antes da esquina

  1. Céus! Pênaltis até aqui no CGL? =)

  2. Taize Odelli disse:

    Apesar de Dois passos antes da esquina ter vencido essa partida, fiquei muito mais tentada a ler Contestado. Mas existe um motivo além da resenha. A guerra do Contestado sempre foi meio misteriosa, não há muitas informações sobre ela, tanto que nas escolas lá em Santa Catarina se ensina muito mais sobre a guerra dos Farrapos do que sobre a nossa própria guerra (e temos até semana Farroupilha lá, com acampamento! Só falta o feriado do dia 20). Não se cultua o fracasso por lá porque muitos nem sabem que houve tal fracasso. Por essa carência de informação sobre o Contestado, tenho vontade de ler qualquer coisinha sobre o conflito, até mesmo quando é ficção.

    • tailor diniz disse:

      Então olho vivo, Taíze! Se vocês baixarem a guarda, terão também o feriado do dia 20.

    • Oi, Taize. A Guerra do Contestado é quase desconhecida no Brasil inteiro. também não sabia muito sobre o “confronto”. Conhecer um pouco mais da nossa história vale a leitura sim. Já o 20 de setembro catarinense… não aconselho. Imagina o MTC (Movimento Tradicionalista do Contestado) obrigando todos os verdadeiros catarinenses a comer pinhão sapecado nos galhos de pinheiro (à temperatura certa), adorando São João Maria e caminhando pelos vales do Planalto vestido de cablocos (à cárater). E, claro, odiando os trens e os americanos. Eu, ein?

  3. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Capaz que em Santa Catarina não é feriado dia 20!!!

  4. Este foi, até o momento, o jogo mais eletrizante, decidido nos pênaltis. Parabéns à arbitragem, que valorizou os dois times ao confrontá-los de forma tão dramática.

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