JOGO 30 – Três traidores e uns outros x Sanga Menor

JOGO 30

Três traidores e uns outros,
de Marcelo Backes (Record / 2010)
x
Sanga Menor,
de Cíntia Lacroix (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Marcelo Frizon – Nasceu em 1980, em Porto Alegre. Graduado pela UFRGS (onde também fez seu mestrado em Literatura Brasileira e onde cursa seu doutorado na mesma área), já trabalhou em vários colégios particulares de Porto Alegre e foi professor substituto de Literatura Brasileira no Instituto de Letras da UFRGS. Atualmente, é professor de Literatura nos colégios Rainha do Brasil e La Salle Dores.

Pré-jogo

Antes de começar propriamente o jogo, é importante observar que estamos diante de dois concorrentes muito diferentes. Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes, é um livro que brinca com a forma e com o discurso do narrador de forma experimental. Sanga Menor, de Cíntia Lacroix, é uma narrativa tradicional, com um narrador em terceira pessoa, o que dá um cunho bastante realista à narrativa.

As diferenças não param aí. Os livros apresentam projetos gráficos muito distintos. Três traidores e uns outros é mais bem cuidado. A leitura agradável é proporcionada pela fonte utilizada e pela forma como as margens foram organizadas nas páginas. Sanga Menor tem fonte e margens pequenas, o que incomoda e torna cansativa sua leitura. A capa de cada livro não chama a atenção: a de Sanga Menor é um pouco poluída, e a de Três traidores e uns outros é minimalista. No entanto, não está em questão o uniforme de cada time, e sim as qualidades literárias que apresentam. Então, paro de julgar os livros pela capa e passo a apontar essas qualidades.

O jogo

Cíntia Lacroix nos apresenta uma bela narrativa centrada em Lírio, um jovem desocupado mimado pela mãe e atazanado pela tia-avó. A apatia de Lírio incomoda o leitor, e parece ser justamente essa a intenção do narrador ao conduzir o leitor pelos trajetos dos personagens em Sanga Menor. No entanto, discordo levemente da crítica de Marcelo Spalding na primeira fase deste campeonato. No jogo 12, ele observa que o narrador exagera na adjetivação, fazendo julgamentos a respeito dos personagens. Creio que a autora, na realidade, domina perfeitamente a técnica do discurso indireto livre, que faz com que não tenhamos certeza de quem está proferindo aquele julgamento. O trecho usado por Spalding começa seu parágrafo assim:

Tia Margô, que atravessava a cozinha para despejar a louça partida no balde de lixo, não pôde deixar de ouvir as palavras da sobrinha. Teve de fazer força para manter-se quieta. Que bobajada era aquela? Até parece que Rosaura não lembrava: durante os três anos em que o filho estudara aqueles mapas todos, elas iam para o bazar e o Percival ficava sozinho em casa! (págs. 10 e 11)

Quem pergunta “Que bobajada era aquela?”? Resposta: Tia Margô. No entanto, não há uso de nenhum verbo dicendi, não há referência direta à personagem, e isso tudo pode levar à conclusão fácil e errônea de que se trata de um narrador abelhudo, metido a julgar seus personagens. O que Cíntia faz, porém, e faz muito bem, é usar uma das técnicas narrativas mais difíceis da criação literária: o uso do discurso indireto livre (a quem interessar possa, recomendo tremendamente a leitura do capítulo sobre o assunto no livro Como funciona a ficção, de James Wood, editado aqui pela Cosac Naify). O parágrafo prossegue com a passagem citada por Spalding:

Sim, porque o bilontra do Lírio – que de burro não tinha nada – inventava sempre uma desculpa: infelizmente, justo naquele fim de semana em que haveria bazar, ele precisava enfiar-se na biblioteca municipal, pois tinha de preparar-se para uma prova difícil. Lorota! Se o moleirão precisava mesmo estudar, nada o impedia de fazê-lo no gabinete do chalé! A verdade é que o safado, naqueles dias, preferia manter-se distante. (pág. 11)

Bilontra, lorota, moleirão e safado são expressões pensadas por Tia Margô. No entanto, é verdade que vez ou outra o narrador se intromete e dá a sua visão das coisas. O mesmo parágrafo prossegue assim:

Vai que a mãe ou a tia confiassem-lhe alguma tarefa? A pobre da Rosaura, contudo, fingia acreditar nos argumentos do filho. E, assim, tocavam-se as duas para a praça da igreja, de coração na mão.

Coração na mão é uma expressão proferida pelo narrador, não por tia Margô, ou Rosaura ou Lírio. Pobre da Rosaura também. Mas é por causa dessa mistura entre indireto livre e narrador intrometido que ficamos desconcertados com a leitura apresentada por Cíntia. É assim que se constrói uma grande narrativa, é isso que estimula o leitor a pensar no que está lendo, a prestar atenção a cada palavra que seus olhos observam.

As descrições apresentadas por Cíntia, no entanto, são demasiado longas. Locais, personagens, pensamentos, tudo é descrito com muitos detalhes. Não é difícil lembrar da resenha de Machado de Assis sobre O Primo Basílio, de Eça de Queirós, escrita em 1878. Lá, Machado põe o dedo na ferida do romance realista ao afirmar que o Realismo só se dará por satisfeito no dia em que nos disser de quantos fios é feito um esfregão de cozinha ou um lenço de cambraia. Esse parece ser o maior ponto fraco da narrativa.

Mas outra técnica que incomoda é o uso excessivo do in media res. Pra quem não sabe, essa é uma expressão latina usada para indicar aquelas narrativas que apresentam uma cena inicial, voltam ao passado e vão contando como se chegou até aquela cena inicial, para então dirigir-se ao final. Cíntia utiliza muito o in media res alternado, que estabelece um constante vai e volta no tempo. (É uma técnica muito utilizada nos romances policiais e, atualmente, pelo cinema.)

A impressão que dá é que a autora quis mostrar tanto todo seu domínio técnico do texto narrativo que acabou exagerando. Provavelmente, já que este é seu primeiro romance, esse é um problema que será revisto em seus próximos livros, porque não há dúvidas de que estamos diante de uma escritora de talento que saberá dominá-lo e não precisará exibi-lo de forma tão intensa no futuro. Pra quem gosta de uma narrativa bastante trabalhada, no entanto, esta é uma leitura imperdível. E, não custa lembrar, o livro foi finalista no ano passado do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria estreante. Ou seja, apesar de algumas deficiências decorrentes da juventude literária da autora, estamos diante de uma obra que merece ser lida e lembrada assim que saírem seus próximos livros.

Marcelo Backes vai por outro caminho. Bruno Mattos, que julgou o livro no Jogo 11, observa que “o grande trunfo de Backes em Três traidores e uns outros é sua capacidade de adaptar o estilo narrativo àquilo que está sendo contado”. Em outras palavras, o que Backes faz é algo também muito difícil, talvez mais difícil que usar o discurso indireto livre: sua narrativa é um belo exemplo daquilo que Adorno explicou ao afirmar que forma literária é experiência social decantada. O narrador do romance, como observado por Bruno, se assemelha muito ao próprio autor. Erudito, mordaz e irônico são características tanto do narrador quanto do autor, para quem conhece um pouco da trajetória de Backes, este que deve ser o último intelectual (no sentido mais estrito do termo) que o Rio Grande do Sul produziu. Não que não tenhamos outros jovens intelectuais, mas Backes há anos vem demonstrando que não está pra brincadeira.

No entanto, eu li o romance como procuro ler tudo que me cai nas mãos, ou seja, sem procurar fazer relações entre o autor e o protagonista. Sim, o protagonista é um tradutor culto que destila suas opiniões rabugentas a respeito daqueles que o cercam, sejam amigos ou inimigos. Quem acompanha a produção de Backes o identifica facilmente nesse narrador. No entanto, o que Backes faz é trabalhar sua crítica de forma isenta, como deveria ser o trabalho de qualquer crítico. E seu personagem não é isento, pelo contrário. Sem querer parecer exagerado na comparação, o narrador é uma espécie de Brás Cubas vivo do século 21. Os mais atualizados com as tendências diriam que ele é um narrador pós-moderno. A mim, que não vejo com bons olhos essa coisa de pós-modernismo, estamos simplesmente diante de um personagem muito bem construído, uma bela representação do homem contemporâneo.

Na primeira parte do romance, a ironia é fácil, porque acompanhamos o narrador voltando a sua terra natal, Anharetã, uma cidade fictícia do interior gaúcho, na região missioneira, que representa o universo em que o autor nasceu e viveu até a adolescência, como o próprio já havia reconhecido em entrevistas. A ironia é fácil porque o narrador culto está diante de gente ignorante, provinciana. Não que gente do interior seja necessariamente ignorante e provinciana, mas é essa a imagem construída pelo narrador a respeito dos personagens que com ele interagem naquele universo.

A narrativa ganha fôlego nas partes seguintes, em que o narrador se encontra ora na Alemanha, ora no Rio de Janeiro, ora em outros lugares que tomam menos tempo de narração. É aí que o narrador encontra inimigos à altura de sua ironia e de seu conhecimento. Se ficasse brigando apenas com os personagens interioranos, o romance perderia a graça. Alguém já disse que quando queremos brigar, precisamos encontrar inimigos à nossa altura. Se eles forem mais fracos, a briga perde a graça. Por isso, ao se defrontar com editores, poetas e tradutores (especialmente tradutoras), o poder narrativo aumenta e o narrador se apresenta como um biltre. Por isso a aproximação com Brás Cubas. E, assim como o personagem machadiano, ele também não poupa a si próprio:

(…) Depois de acordar uma semana inteira por causa da claridade e só então descobrir que uma espécie de cortina se escondia, enrolada, na parte superior da maldita entrada de luz, que podia, óbvio, ser fechada se puxada, agora eram os pombos que não me deixavam em paz. Logo eu, que preciso de condições ideais, umas quinze ao todo, pra dormir bem (pág. 39-40).

A única restrição que eu faria ao livro diz respeito a um trecho que me lembrou muito Budapeste, de Chico Buarque. O narrador está sem dinheiro, vivendo de favor na casa de um amigo poeta, e de repente surge um empresário alemão precisando de um intérprete para acompanhá-lo em suas sessões de terapia. Quando comecei a ler esse trecho, que toma a maior parte do final do romance, lembrei imediatamente do protagonista criado por Chico, que trabalha como ghost writer e escreve um romance para um alemão. No fundo, as histórias de cada um são bem diferentes, mas me pareceu inevitável não lembrar.

E um destaque merece ser feito: são narrados de forma belíssima os dramas vividos pelo protagonista com as mulheres que vão atravessando seu caminho. Ora cômicos, ora trágicos, são histórias sempre apresentadas com um domínio literário raro nos dias de hoje, em que se produzem tantos livros que acabam encalhados sob ameaça de serem incinerados.

O romance de Backes não é fácil. O leitor comum não conseguirá acompanhá-lo como ele merece e, certamente, preferirá o livro de Cíntia. No entanto, a forma fragmentada, o discurso irônico e a provocativa representação do universo editorial e literário brasileiro garantem a vitória à narrativa de Backes.

PLACAR
Três traidores e uns outros 2 x 1 Sanga Menor

VENCEDOR
Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes

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Uma resposta para JOGO 30 – Três traidores e uns outros x Sanga Menor

  1. O Backes faz falta nos debates literários aqui do Sul.

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