JOGO 39 – A misteriosa morte de Miguela de Alcazar x História de não acontecer

JOGO 39

A misteriosa morte de Miguela de Alcazar,
de Lourenço Cazarré (Bertrand Brasil / 2009)
x
História de não acontecer,
de Reges Schwaab (Modelo de Nuvem / 2010)

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JUIZ
Daniel Weller – Nascido no Rio de Janeiro, em 1968. Como todo viciado em leitura e livros, confunde realidade com ficção e ficção com realidade. Mas garante que tudo é verdade: licenciado em Letras (UFRGS – 2010), bacharel em Física (UFRJ – 1990) e mestre em Ciência da Computação (UNICAMP – 1995). Mora em Porto Alegre desde 2007. Em 2009, foi coordenador do Livro e Literatura, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, quando realizou eventos, concebeu e produziu projetos de formação de leitores como a Maratona Literária, o Debate Contemporâneo e o Prefácio ao Vivo. Atualmente, é mestrando em Literatura Brasileira e tenta ser professor no Ensino Médio.

Pré-jogo 

Lá em casa, o campeonato começou na volta de um agradável piquenique, no último domingo de setembro, quando recebi o envelope com os dois times. Nunca poderia imaginar que estava levando pura dinamite para casa. Nesse jogo, que o acaso os colocou como adversários, os dois se estranharam demais. Desde o início, a partida foi muito disputada e catimbada. Foi trabalhoso contê-los e precisei usar de muito jogo de cintura: eles vieram agressivos, em uma coreografia de guerra, determinados a vencer e a impedir, a todo custo, o gol do adversário. Agora, com o jogo terminado, tenho tranquilidade e confesso que foi até divertido obrigá-los a ficar próximos, respeitando as regras. Afinal, são escolas diferentes de futebol, com modos distintos de representação da realidade e da técnica de contar histórias. Boas jogadas e momentos de fruição e prazer tornaram o trabalho um divertimento. Se a cada trecho sublinhado ou anotação eu apitasse, como um juiz real, meus vizinhos me internariam.

Jogo. Jogo? Ainda não 

O jogo começou quando abri o envelope, ou melhor, quando eles entraram em campo e se colocaram em posição para as fotos. De longe, não foi possível identificar as diferenças das equipes e das táticas. É que lado a lado, na hora dos hinos, os uniformes combinavam perfeitamente, parecendo propiciar um diálogo pacífico e amistoso. Nada mais falso. O experiente contista Lourenço Cazarré e o estreante Reges Schwaab elaboraram criações imissíveis como água e óleo. Todos os livros têm personalidade, e A misteriosa morte de Miguela de Alcazar e a História de não acontecer desde que entraram em campo assumiram as suas diferenças e já nos primeiros segundos marcaram as suas posições.

Nas primeiras linhas, o narrador de Cazarré, Campestre de Campos Campelo, mostra as pontas das chuteiras:

Comecemos do início.
Não é moderno, sei. Escritores sofisticados preferem contar suas histórias de trás para diante ou aos saltos, indo e voltando. Uns mais arrojados escrevem até mesmo livros que não têm nem história nem personagens. Mas sou jornalista de profissão e, como todos do meu ofício, pratico o texto claro, legível e cronológico.
Aceito, porém, as críticas que nos fazem. Admito que, em geral, os redatores jornalísticos partem sempre de um mesmo princípio: o leitor é uma besta e a ele deve-se facilitar tudo. Concordo quando dizem que enredos óbvios e personagens chapados marcam boa parte da produção dos coleguinhas.

A carapuça cai na cabeça do narrador de Schwaab, que não se intimida e assume a sua posição, colocando efeito na sua bola pós-moderna: personagens sem nomes, jogos herméticos do dito e do não dito e uso de efeitos gráficos, que hibridizam prosa com poesia. Para Reges, são recursos que convidam o leitor para produzir sentidos e refletir sobre a heteronomia do tempo, ao redor de algum 21 de dezembro.

Carregando sua concha, o animal usa a trilha que deixou
atrás para alimentar-se; ele come o que fica grudado no fio
que imaginou. Depois de ir, tudo que precisa fazer
é rastejar de volta
pelo mesmo caminho.
As trilhas ajudam esses animais a voltarem ao princípio.
Eles não se afastam muito (…) 

Não há quem possa conter o tempo, nem mesmo o relógio.
Anuncia-o a cada segundo e já se vê ultrapassado no
instante seguinte. E sempre, sem parar. Ninguém pode
conter o tempo. Pode é contar-se nele, muito breve,
perdendo sempre,
ganhando o tempo.
O tempo já nunca começou. E acabará jamais; acabaremos
nós, tolos, todos de tanto rastejar.
Por isso
e também para não perder
N.A. decidiu voltar [morrer].
[um dia N.A. decidiu nascer]
Nascer
para antes
morrer
um dia, porque sabia ter de morrer no seu aniversário,
todas as noites isso era dito dentro de si; e neste ano seu
aniversário seria em um domingo.
É costume morrer-se aos domingos; toda família tem
Alguém que morreu em um domingo.

N.A. tem agora uma idade normal, está deitado, um quarto
branco, azulejos brancos, rejuntes velhos, uma vez brancos,
não mais; resolve levantar. Procura o fio de gosma
no chão, o seu, e passa a segui-lo, andar atrás, de volta,
descontando o tempo, até estar em casa novamente, com
Ela.

(…) Ao contar-se no tempo, a vida poder ser ao contrário, contra a heteronomia do tempo, sem ter de viver no presente pelo simples medo de um tempo senhor, autônomo, que impõe seu passar. Por isso sabia voltar para acabar com tudo, morrer ao nascer.

Carioca atônito, não esperava começo tão “faca na bota”. Fiquei em dúvida se conseguiria manter o controle das equipes. No regulamento do Gauchão, não está previsto expulsar jogadores por desrespeito ao adversário. Caraca, seria possível livros tão diferentes? Respirei fundo, pensei na sorte que sempre é abundante para o meu lado: “Pessoal, vamos com calma! Respeitem as regras do jogo! Elas são claras…”

Ato contínuo, mostrei cartão amarelo para o narrador do Não acontecer, que fazia caretas para o jornalista Campestre e gritava: “Tu escreves como teus coleguinhas, tchê”. Um tumulto se generalizou. Os personagens discutiam e até os autores invadiram o campo: “Não sou eu, seu guri de fraldas, é o personagem jornalista tosco que criei”. A confusão prosseguiu e os narradores discutiam duramente. Campestre, com dedo em riste para o adversário, tentava defender-se.

Porém, não foi essa a orientação adotada aqui. Acreditamos, desde a primeira linha, que esta obra destina-se a um leitor requintado, conhecedor dos clássicos da literatura policial. Embora comportado no estilo, este livro fornece ao leitor um elevado número de frases rebuscadas – na maioria irônicas – que poderão ser usadas, depois, com grande proveito, em conversações inteligentes.

O time de Schwaab não estava para papo. Na bola ao alto, para retomar a partida, ganha o lance e da intermediária chuta para gol.

[O que está dentro, preso, como os animais nas jaulas, troca
com o de fora, preso, telepáticos arrepios de recíproca
incompreensão.]

No ataque, a jogada produz sentido: a relação escritor e leitor, as dificuldades de sermos compreendidos e de que eu estou preso, desempenhando um papel de juiz. Eu também preciso voltar para a resenha. O jogo deve ser retomado.

O goleiro d’A misteriosa estava adiantado e foi encoberto. É o primeiro gol da partida. E possivelmente o mais rápido do campeonato. Mas a equipe de Lourenço é guerreira. Cazarré, de fora do campo, incentiva seu time para que mantenha a cabeça levantada, que continue atirando.

Os personagens aqui apresentados – seres humanos complexos, de fina inteligência, mas vítimas de incandescentes paixões primitivas – têm profundidade e densidade. Por fim, a história contada nestas mal traçadas linhas é rocambolesca a ponto de beirar o inverossímil, mas não deixa de ser tocante. Sem me alongar em detalhes, posso anunciar, neste preâmbulo, que o que se discute aqui é, em última instância, a morte, o termo da vida. Haverá tema mais transcendente? No entanto, essa matéria nobre é tratada com grande leveza. Deve-se ressaltar que este é um livro divertido e movimentado. Assim, o leitor que se delicia com chatices com o nouveau roman francês pode parar por aqui.
Vamos, pois, à história.

E eu respirei aliviado pelo fim das explicações. O jogo deveria recomeçar. Pelo menos algum ponto de contato entre os livros foi estabelecido: a morte. A torcida d’A misteriosa, tentando dar uma força para o time, gritava HISTÓRIA, HISTÓRIA, HISTÓRIA. Lógico que por pura provocação ao adversário. O aparente paradoxo do título exige do leitor o esforço de mergulhar no texto e paciência para que as lacunas de sentido possam ser preenchidas. A História de não acontecer, que aconteceu. A torcida entenderia que em campo está o personagem N.A. e sua história, “apesar de nunca ter acontecido”? Talvez, mas precisará ler até o final.

O começo foi pedreira e prenúncio de que mais dificuldades viriam pela frente. Agora, escrevendo a crônica do jogo, destaco parte dos problemas, mas naquele momento estava receoso se a partida deslancharia. Tinha apenas uma certeza: nem se os cartolas do Gauchão tivessem planejado poderiam ter reunido times tão diferentes.

Vamos jogar, moçada?

O jogo

A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, com seu uniforme preto degradê, durante todo o jogo, deixou claro seu objetivo: uma história divertida sobre um assassinato, que começa pela inteligente composição da capa, passa por cada linha, por cada passe e fecha na última frase: “a verdade é como defunto afogado: sempre vem à tona”. Lourenço Cazarré é um escritor premiado e jornalista experiente que, com domínio técnico e habilidade, coloca na cara do gol escritores consagrados do romance policial, que tentam despistar o repórter Campestre de Campos Campelo e o delegado Aroeira.

Os personagens estão em Brasília para o Primeiro Congresso Internacional de Escritores de Histórias Policiais, discutindo “novas tramas para livros policiais, diferentes formas de assassinato, crimes indecifráveis e personagens curiosos”. O livro, a partir das muitas referências e paródias, é uma grande homenagem à literatura policial e uma análise de “baixa sociologia” e “filosofança” sobre o Brasil e o paraíso dos funcionários públicos.

Mais adiante, os Ministérios. Alinhados como gigantescas caixas de fósforo. Verdes. Dentro deles, imaginei, estavam milhares de sujeitos que – arregalando os olhos e sufocando bocejos – lutavam bravamente contra a sonolência pós-almoço. É dura a vida dos funcionários. Não é moleza ter que redigir, carimbar, protocolar e catalogar milhares de documentos cuja única finalidade é o arquivamento.

Sua novela coloca em campo o gaúcho Campestre, “Serloque dos pampas”, que com a ajuda do português Joaquim Manoel Batota, gerente do Brasília Palace Hotel, anda pelos corredores à procura de quem entrou no apartamento 1313 e matou a famosa escritora espanhola Miguela de Alcazar, de 96 anos. Ao lado do corpo, a Bíblia aberta na página 1313 (parte final do Apocalipse) e um bilhete, assinado com a letra S, que anunciava:

Durante o Congresso eu a desmascararei, Miguela. Apontarei os trechos dos vários livros que você plagiou ao escrever O Touro Maltês.

Cazarré aposta no humor escrachado, mirando, sob o ponto de vista de um narrador gaúcho e nacionalista, uma metralhadora giratória que ri de todos e de tudo. Campestre, um jornalista experiente e debochado, não perde nenhuma oportunidade para expressar suas opiniões e tecer seus comentários: seja entre os diálogos dos personagens, seja ao final de cada um dos 66 capítulos. Além do narrador intruso há efeitos de humor associados com o time dos escritores: Sim Et Non, Dax Chamber, Fedorova, Foo Lee Shi Man, Agueda Christine, Jorge Luís Borgias.

O enredo, de uma “morte em cima de morte”, é muito bem construído e a solução do enigma é o clímax da curva do riso. Os títulos dos capítulos também representam um “gol legal” de Cazarré, que sintetizam em frases espirituosas o que vai rolar no texto, transformando a novela em uma espécie de folhetim mirabolante, que pode tirar o fôlego do leitor.

Aqui se faz necessário um alerta: o leitor embarcará na viagem, pelos labirintos do crime de Miguela, se aceitar o exagero típico de toda piada e caricatura rocambolesca, repleta de estereótipos. No século XIX, o poeta e crítico inglês Samuel Coleridge batizou esse “aceitar” de “suspensão de descrença”. Ou seja, o leitor mergulha na história e curte os milhares de aforismos de Cazarré, se voluntariamente aceitar situações improváveis e exageradas.

Por exemplo: Sim Et Non é francês, mas tem trejeitos e falas de um carioca da gema; Dax é americano legítimo, mas é gaudério típico do CTG; Fedorova é russa, mas encarna uma cearense, Foo Lee é um paulistano típico, mas chinês de origem e Agueda Christine é inglesa, mas é das Gerais, Uai. Querem uma prova?

(…) Se odeia pra cacete. É um ódio maior do que o Maracanã (…) É isso aí, sangue bom (…) Entonces, o animal não passou por aqui? (…) Nada disso, tchê. Animal, na elegante linguagem dos gaúchos, é o mesmo que ser humano, gente (…) Hoteleiro da muléstia (…) Arre égua, meu bichinho (…) Oxente, a morte se encontra instalada no coração do regime capitalista. O Ocidente está descendo a ladeira dos valores humanos como jegue sobrecarregado (…) Na China, meu, quando tem muita poeira debaixo da cama, a gente costuma dizer: ou o cabo da vassoura é curto, ou camareira é preguiçosa (…) nem os fortes nem os violentos morrem no leito, mano (…) Ôrra, meu (…) Diz o Tao Te King: O bom andarilho não deixa pegadas (…) Deixe de ser bobo, sô (…) trabalho duro, no Brasil, só quando se come rapadura. (…)

Há naturalmente o risco do excesso, de errar a mão e de o leitor abandonar o livro, na solidão de uma história não terminada. Mas isso é questão de gosto pessoal de cada um, que independe deste juiz. O fato é que a história é boa e a linguagem é de profissional, que sabe os caminhos dos labirintos. Lourenço tem o mérito de escrever de modo fluente, mesmo criando um narrador ansioso em explicar tudo, monopolizando o jogo. Citando seu próprio personagem Borgias:

Todos os corredores nos conduzem a um labirinto, onde nos perderemos. Nós e o nosso outro eu. Às vezes, nós; às vezes, o outro. Sempre alguém acaba morrendo na solidão dos labirintos.

Superando as diferenças, o labirinto de Cazarré se une com a espiral de Schwaab. A partida é bonita, pois se de um lado há uma equipe experiente do outro há um time consciente em marcar gols ao avesso, nos espaços de probabilidades de eventos, a partir da reversibilidade e inversão temporais. História de não acontecer trata de uma história ocorrida, que não deixou marcas e rastros. Os personagens não são nomeados e giram ao redor de um ninguém, que “nunca fez falta”, numa invisível e “inesperada trajetória circular”.

Há o Velho, o Homem, a Velha, a Tia, a Mulher, a Menina e o protagonista N.A., que participam recursivamente de jogos de oposições no espaço tenso das probabilidades. As chances das histórias são as mesmas: 50% para acontecer e 50% para não acontecer, em um “tempo que já nunca começou”. Começo e fim, perdendo e ganhando, o Homem e a Mulher, a casa e a rua, acordar e dormir, respirar e sufocar, “frias manhãs de inverno” e “abafados alvoreceres do verão”, o Velho e o Menino, relógio de parede e relógio de bolso, tudo e pouco, dentro e fora do tempo, deixar e apagar rastros. Tudo é matéria com a mesma probabilidade de instanciação.

Assumir a posição de leitor de Schwaab é estar preso apenas por um fio, ou melhor, por um cordão. Difícil identificar o clímax da história. Há instantâneos flagrados com muita beleza, que constituem um somatório de eventos de uma vida não acontecida. Há o instante do olhar para a Mulher, as tentativas de retornar à casa, a importância de manter os olhos fechados e a necessidade do mergulho para existir.

A linguagem é opaca e o desenrolar das probabilidades dos eventos parece se movimentar ao contrário (sentido anti-horário?). Quase tudo é cifrado, pelo menos até encontrarmos a chave, a pista. O gozo da descoberta é um gol de placa de Schwaab. Não estamos considerando um assassinato, como na boa história de Cazarré, mas ao leitor também é oferecido o prazer de descobrir o enredo e o protagonista.

Talvez seja exigir demais do pessoal da arquibancada, que muitas vezes vai ao estádio esperando apenas entretenimento e diversão. Mas isso não é problema dos livros que não querem facilitar a vida dos leitores e preferem trilhar um caminho mais complexo: um narrador que só entenderemos no final, que brinca de oposição com a onisciência e a onipotência do enunciador clássico e que tenta retratar instantes efêmeros na desordem do princípio.

O torcedor precisa preencher as muitas lacunas e indeterminações das jogadas e ao tabelar com o time do Não acontecer passa a ser o coautor dos gols prováveis. Ao responder e refletir sobre as jogadas do Reges Schwaab, jogamos também no ataque, preenchendo os pontos de indeterminação do texto.

Como leitor comprometido e como juiz da partida, acompanhei as boas jogadas, tabelando com a narrativa e aceitando o convite para releitura e replay de jogadas. Os resultados foram e são muito bons, a partir de cada releitura, que exige uma postura ativa do leitor para construção e produção de sentidos. Mais ou menos como o desejo do protagonista N.A.:

Ao pensar sobre si mesmo, almejava fazer-se de novo (…) interessava desmontar planos feitos por outros, quebrar engrenagens. Esboçou algo como um prazer em tirar o eixo.

As chaves para resolução do jogo de desafio proposto por Schwaab são reveladas quando levantamos as diversas camadas, tateando pelo escuro, tentando unir as mantas das extremidades ao núcleo inicial, dobrando e espiando pela fresta o interior da casa, da concha.

A quebra dos referenciais de tempo, o espaço probabilístico e a indeterminação dos personagens surgem como contraponto à visão determinista de literatura. Há uma natural desestabilização do leitor, causando um estranhamento e dificultando a recepção do texto. No time do Não acontecer há movimentos de ampliação dos espaços consolidados da literatura, que nos obrigam a pensar pelo avesso e aceitar o novo e aquilo que nos faz exclamar: Como assim? Mas então…?!

Um leitor aberto às experimentações e disposto a rever as jogadas, em câmera lenta e em leitura miúda, percebe um projeto bem delineado e consistente até o final, sem concessões: “Escrito entre (…) Iniciado em maio de 2010. Finalizado em fevereiro de 2008.”

Pós-jogo

Para este juiz, após o prazer da partida há o momento de ressaca. No Gauchão do ano passado, foi o mesmo dilema. Nestas últimas linhas, devo reforçar que a regra não é sempre clara, objetiva e unívoca. Que um gol pode balançar na rede lá de casa, mas pode ser bola fora para uma parte da arquibancada. Que uma jogada pode ser anulada por impedimento, por falta sem bola ou por uma interpretação arbitrária do juiz. Além disso, pela natureza muito diversa dos livros, há uma dificuldade de avaliá-los e colocá-los em uma mesma escala comparativa. Como no futebol, favoritismo não ganha jogo, e a literatura é também uma caixinha de surpresas.

Mas o mais difícil foi decidir: quando é gol? Quando a bola realmente estufa a rede?

Tentando agir com transparência para a marcação dos gols, decidi que estaria apitando para toda jogada que me desconcertasse e me surpreendesse, principalmente se me lembrasse da jogada dias depois. Para embasar o método, cito um trecho do psicanalista Joel Birman:

“A produção do sentido implica a apropriação do texto pelo leitor, que imprime a sua singularidade na experiência da leitura (…) estas dimensões se fundam no desejo do leitor (…) Com efeito, o leitor é desconcertado pela leitura, que o desarruma nos seus sistemas de referência. Um certo livro não passa em branco para um leitor determinado, quando uma experiência desconcertante desta ordem se realiza. Somente, então, as páginas plenas de sinais gráficos passam a ser escritas com palavras ressonantes. Algo da ordem da provocação aconteceu, pois o desejo do leitor é colocado em movimento mediante um fragmento do texto.” (O sujeito na leitura. In: Birman, Joel. Por uma estilística da existência. São Paulo: editora 34, 1996, p. 54-55)

Ler criticamente um livro de ficção contemporânea é um trabalho arriscado. Seja pela ausência do tempo que facilita a separação do joio do trigo ou pela impossibilidade de análise de um conjunto de obras do autor, por muitas vezes não existir uma amostra. E por fim, com humildade, assumo que avaliar esteticamente arte no calor da hora é sempre estar na corda bamba, pois depende de sensação e sentimento: exatamente os termos que explicam a palavra grega aísthesis. Dito isso, escrevo na súmula:

PLACAR
A misteriosa morte de Miguela de Alcazar 2 x 4 História de não acontecer

VENCEDOR
História de não acontecer, de Reges Schwaab

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Uma resposta para JOGO 39 – A misteriosa morte de Miguela de Alcazar x História de não acontecer

  1. Sharon Caleffi disse:

    Ae! Veríssimo Filho foi pro chuveiro! Não sei se o “História de não acontecer” é tão bom quanto dizem, mas tenho coceira com escritor de carreira estabelecida e aposentadoria garantida disputando com quem tem que suar em trabalhos fedidos pra pagar a impressão do próprio livro. Ou coisa assim. Fico sempre feliz quando um estreante ganha do best seller.

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