JOGO 51 – História de não acontecer x Anjo das ondas

JOGO 51

FINAL DO GAUCHÃO DE LITERATURA 2011

História de não acontecer,
de Reges Schwaab (Modelo de Nuvem / 2010)
x
Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)

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JUIZ
Paulo Seben – Poeta, romancista, contista, letrista de rock e MPG, articulista, crítico literário, professor de Literatura Brasileira do Instituto de Letras da UFRGS, universidade na qual se graduou em Letras, tendo obtido depois os títulos de Mestre e Doutor em Letras pela PUCRS. No futebol, foi goleiro, lateral-direito, lateral-esquerdo, beque central e quarto-zagueiro (esta, a posição em que se notabilizou literariamente, devido a seu poema “Quarto-Zagueiro da Poesia”, levou a editora Ameopoema a dar-lhe a camisa 4 de sua seleção de poetas); fora dos gramados desde a adolescência, publicou, em dezembro de 2010, o Dicionário Gremista pela editora caxiense Belas Letras.

Fatores extracampo

Pode até ser verdade que o árbitro ideal de uma partida de futebol seja discreto como uma samambaia em sacada de apartamento de velhinha que mora sozinha e eficiente como um dia foram os relógios suíços de mola, mas é absolutamente certo que toda final de campeonato, paradoxalmente, precisa de um juiz polêmico. Se o Flamengo estiver em campo, o juiz precisa ser, além de contestável, ladrão. Ainda bem que o Flamengo não participa do Gauchão de Literatura, fato que me livra da condenação prévia, se bem que não dê garantia nenhuma aos literatletas torceitores de que ficarão felizes com meu desempenho e minha decisão final. Talvez a poderosa Lu Thomé, inclusive, se arrependa amargamente da escala que fez. Agora é tarde.

Há juízes que dizem não acompanhar a mídia esportiva; seria uma forma de não se deixar influenciar por fatores extracampo. Armando Marques chamava os jogadores pelo sobrenome que assinavam na súmula (“Sr. Nascimento, o camisa 10 do Santos”). Pois a primeira coisa que fiz depois de ler os dois romances desta eletrizante final foi debulhar as 49 resenhas anteriores. Minto. A segunda. A primeira foi escrever à Lu Thomé para ter certeza de que eu estava decidindo o título do Gauchão, e não a primeira partida do qualifying.

De um lado, temos um escritor multipremiado, que eternamente sofrerá com a minha inveja por ter, certa vez, recebido um computador como ADIANTAMENTO de direitos autorais. Ah, como é dolorosa a vida de juiz free-lancer, sem contrato assinado. De outro, um completo desconhecido, saudado pelos paratextos da edição de sua obra como um grande talento. Estaríamos diante da iminência de um Mazembaço ou de um Jabutismo?

Os uniformes dos dois times já foram comentados por outros resenhistas, e pouco tenho a acrescentar, exceto que a capa de História de não acontecer poderia ser um pouco menos pretensiosa, e a de Anjo das ondas, menos convencionalmente anticonvencional (e, ainda por cima, pouco operacional: vai lá marcar página do terço final da obra com aquela única orelha desproporcional pra ver o que é esquisitice). Aqui, camiseta não vai ganhar jogo.

O jogo

As duas obras são um triunfo de Filosofia da composição, o célebre ensaio de Edgar Allan Poe sobre… Poesia, no qual, ao descrever o processo de criação do poema O corvo, ele estabelece as regras de ouro do conto ocidental dos séculos XIX e XX. Infelizmente, eu supunha estar arbitrando um confronto de romances. Tanto Anjo das águas quanto História de não acontecer são livros que se lê de uma sentada, e infelizmente não se trata daquelas sentadas de virar noite por não conseguir interromper a leitura nem pra ir ao banheiro, e sim daquelas de ocupar uma viagem de ônibus do Campus Vale ao IAPI ou o processo de destinação final do feijão-com-arroz do RU (aliás, sempre delicioso, e o leitor que decida o referente, aqui).

Em tempos de tuitância e raicaísmo, deve parecer estranho dizer que duas narrativas são demasiado curtas, e a injustiça do juiz se torna ainda mais gritante quando a fluência da narrativa, a concisão das frases e a limpeza do estilo são virtudes das duas equipes em campo, mas o acerto dos técnicos na escolha do esquema mais adequado às características dos atletas escalados e às preferências das torcidas organizadas e desorganizadas (sem contar, pelo que vi de meus colegas de Crítica, da mídia lítero-esportiva) é acerto que não atende ao gosto conservador dos leitores de mais de meio século de vida. Depois de terminar a segunda leitura dos dois livros, já em condições acadêmicas (sentado, tomando notas), senti a mesma insatisfação, a mesma insaciedade que me acomete depois de ler uma tuitada ou um haicai. Gosto de quero mais nem sempre é bom, ainda mais quando, como eu, se é um glutão literário, que gosta de ler e de entender o que lê.

O Flamengo não está em campo, mas o que se vê nas entrelinhas dos titãs em luta é muito lance de efeito, muita firula, muito craquismo. Lindo de se ver, gostoso de se ler, deveras, mas cadê a bola pro mato, já que o jogo é de campeonato? Dungo-Dinhista convicto, sinto falta de sangue. Não da falcatrua produzida por um prosaico parafuso na base da Copa, mas daquele sangue ausente na Luísa de O primo Basílio, na estocada mortal de Machado de Assis. Os personagens esquematizados de História de não acontecer são funções matemáticas, e o(s) Gustavo(s) de Anjo das águas tem(têm) a fragilidade moral de quem se pergunta se vai ter que responder pelos erros A MAIS (porque, deduzo, os erros normais são pagos liminarmente pelo papai e pela mamãe).

O primeiro tempo passou tão rápido que o leitor desavisado, caso tenha ido à copa buscar um refrigerante e um sanduíche de salame, voltou ao seu lugar na geral depois do meu apito mandando os dois contendores para os vestiários. Zero a zero, nenhum lance de gol, mas muitas jogadas bonitas para repetir em câmera lenta, acelerada, quadro a quadro, em retrocesso…

Os dois times voltam mais nervosos, o que costuma ser bom para um romance. Schwaab aposta tudo num experimentalismo que intertextualiza com O alienista, de Machado de Assis; com O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, como um resenhista anterior já registrou; com a obra completa de Jorge Luís Borges (alguém falou em Borges, antes); com o Estruturalismo e com a Pós-Modernidade (se é que esta existe); e com o molequismo de Oswald de Andrade. Tanta pretensão esbarra na solidez entediada da prosa segura de Noll, que não joga para ganhar, mas para manter a bola rolando, característica marcante em seus romances, exatamente por isso considerados os melhores exemplos (sem nenhuma ironia) do niilismo e do relativismo absoluto da Pós-Modernidade.

Sem conseguir marcar a favor, apesar de alguns chutes perigosos, como a insinuação de abuso sexual intrafamiliar, que todavia bate na trave pela gratuidade e pela falta de desenvolvimento posterior (teria sido apenas uma citação de Guido Crepax, substituindo a russa-branca loira e esquálida pelo paleo-anchietano Necessita Atendimento?), ou a boa sacada da qual parte a trama, que acaba saindo pela linha de fundo de seu próprio lado, cedendo um escanteio ao apatetado Gustavo, que, tentando cobrá-lo e cabecear ao mesmo tempo, acaba perdendo as calças e a verossimilhança no areão da praia. Ou ainda o melhor da obra, que é o rancoroso Homem, que, nos descontos, quando tudo indicava uma prorrogação, foi obrigado pelo técnico, preparador físico e presidente do clube Reges Schwaab a marcar um vexaminoso gol contra, muito bem flagrado pelo Pedro Mandagará em sua resenha do jogo 49 deste Gauchão de Literatura. Aquela página 77 é um momento de má imitação dos piores momentos do saudoso Moacyr Scliar, aqueles em que, no final dos seus romances até aquele exato ponto devorados com curiosidade e tensão crescente, ele resolvia dar uma regredida jdanovista e explicava toda a alegoria criada na obra, para concluir que não era mágico, era só realismo… Caio Fernando Abreu, Julio Cortázar, Jorge Luís Borges, Guimarães Rosa e Manuel Scorza se reviram até agora em seus túmulos com aquela página 77.

Confesso que torci pelo desafiante, apesar do grande respeito que tenho pela prosa de Noll, mas estou aqui para julgar, não para gostar. O placar mais justo talvez fosse um zero a zero no tempo normal, na prorrogação e nos pênaltis, mas a tranquilidade, fruto da maior experiência, valeu a João Gilberto Noll o título, que a inexperiência do surpreendente e promissor estreante Reges Schwaab botou a perder.

Sem pesar, sem entusiasmo, trilo o apito enquanto – desconfio – parte da torcida reage com indignação. Bem, sou Paulo, julguei um bom combate, levei até o fim a partida final do Gauchão de Literatura e mantenho a fé de que ambos os autores logo publicarão algo melhor.

Afinal, autores não têm que agradar aos juízes. Autores escrevem. Como diz o maior poeta brasileiro, o afro-anglo-lusitano Fernando Pessoa, “Sentir? Sinta quem lê”.

PLACAR
História de não acontecer 0 x 1 Anjo das ondas

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

CAMPEÃO DO CAMPEONATO GAÚCHO DE LITERATURA 2011

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Final do Gauchão de Literatura 2011

Depois de quase seis meses e 50 jogos, a torcida do Gauchão de Literatura 2011 já pode aprumar-se nas arquibancadas para assistir a grande final do campeonato.

Os dois finalistas já estão a postos: História de não acontecer, de Reges Schwaab, e Anjo das ondas, de João Gilberto Noll.

A partida acontece na próxima segunda-feira, dia 19 de dezembro, às 10h, aqui no site.

Esperamos vocês!

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JOGO 50 – Anjo das ondas x Sinuca embaixo d’água

JOGO 50

Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)
x
Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)

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JUÍZA
Joana Bosak – Doutora em Literatura Comparada. Professora no Instituto de Letras da UFRGS entre 2007 e 2009. Professora em oficinas de leitura no StudioClio e palestrante no Fronteiras do Pensamento. Autora de ensaios sobre literatura e tradução e do livro De guaxos e de sombras, publicado pela Dublinense. Colaboradora do site www.celpcyro.org.br com artigos sobre literatura e teoria literária.

Concorrentes

O formato pequeno, ainda que não de bolso, combina com a extensão e a proposta dos livros. As capas também estão em sintonia: as cores cinza, grafite e vermelho e azul desmaiados na capa de Sinuca embaixo d’água antecipam a melancolia e a vida dos personagens que escorrem pelas páginas. As bolas vermelhas, soltas na capa, insinuam um misto de borbulhas de água e de bolas de sinuca. Não dá pra respirar.

O amarelo vibrante da contracapa de Anjo das ondas, por sua vez, contrasta com o olhar oblíquo do menino da capa, em um azul cortado por letras amarelas insistentes. As duas capas parecem estar de acordo. Mas a capa de Anjo das ondas me estimula mais a ler o livro pelo toque de humanidade do olhar. E pela vida, que salta do amarelão.

O jogo

Narrativa: o texto de Sinuca embaixo d’água é envolvente de início, instigando a montagem do quebra-cabeça entre as diversas vozes narrativas que vão surgindo, depondo, sofrendo, sobrevivendo à morte precoce de Antônia, aparentemente, talvez, mais madura e resolvida que os que ficam, confusos e perdidos em suas vidas vazias e sem propósitos que não a rememoração do acidente e seus porquês. O enredo vai ficando circular: como a polifonia não permite um avanço linear, as vozes vão, muitas vezes, se sobrepondo. Chega um momento em que parece desnecessário saber outra versão da história. A linguagem é jovem, não jovial. Mas é um jovem sem luz, é de um jovem desesperançado, de acordo com a temática do livro, às vezes um tanto blasé, como se realmente não houvesse outra saída a não ser chocar-se de carro contra um poste.

Em Anjo das ondas, a verdade está submersa. O enredo não linear e espacialmente variado permite uma elaboração diferenciada das sensações de seu protagonista. O fato de termos acesso ao monólogo interior de Gustavo permite que nos aproximemos dele, o que eu acho que não acontece em Sinuca embaixo d’água; apesar do sofrimento não há toque: a humanidade passa ao largo.

A questão do isolamento das pessoas fica clara em Sinuca embaixo d’água, com cada um vivendo a sua realidade separadamente, com capítulos que nomeiam o mundo e a versão de cada um. No entanto, não há troca. O isolamento é total. O que une é a morte e não a vida. Quando Camilo depara-se, em casa, com a mãe, no meio da madrugada, insone, zumbi, fazendo tricô, diz, em uma das melhores construções do texto dolorido: “Sentada na poltrona, de costas pra mim, minha mãe ainda tricotava, sem rádio ou TV, sofrendo apenas, como se desse cada ponto na carne”.

No caso de Anjo das ondas, em que o crescimento com alguma dor também se faz presente a proposta vai noutra direção: não é necessário dizer tudo, mas o pouco que temos acede ao interior de um texto em que o não dito fala mais alto: é aí que Noll mostra a sua não ingenuidade e sua maestria. Seu silêncio fala muito e a economia de suas páginas revela mundos interiores extremamente povoados. Se temos acesso ao mundo interior de Gustavo e suas dúvidas a um tempo existenciais e juvenis; de sua avó sabemos do brilho, da mãe a indefinição, do pai, a desolação.

Em Anjo das ondas as cidades nomeadas também têm vida: na Londres fria o espaço da dúvida é difuso como sua neblina; no Rio, o sol da praia, a malandragem dos ladrões, as amizades eventuais são coloridas e é nesse carnaval de cores – o amarelão que salta da contracapa – que se dá o choque com a realidade – ou com a ficção.

E na sabedoria que alcança Gustavo menino no avião, a visão do futuro a ser conquistado, solar: “E que entre hoje e o meu desenlace, tomara que bem mais adiante, eu cavasse uma sabedoria que viesse dos meus atos e não de algum mestre acima de suspeita”.

A vida encontra a vida.

PLACAR
Anjo das ondas 3 x 1 Sinuca embaixo d’água

VENCEDOR
Anjo das ondas, de João Gilberto Noll

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JOGO 49 – História de não acontecer x Três traidores e uns outros

JOGO 49 

História de não acontecer,
de Reges Schwaab (Modelo de Nuvem / 2010)
x
Três traidores e uns outros,
de Marcelo Backes (Record / 2010) 

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JUIZ
Pedro Mandagará – Está terminando seu doutorado em Letras (Teoria da Literatura) na PUCRS, onde fez mestrado na mesma área. Também é bacharel em Filosofia pela PUCRS. Sua pesquisa trata do engajamento na literatura brasileira e latino-americana dos anos 1970.

Os uniformes

A essa altura, todas as capas dos participantes do Gauchão de Literatura já foram extensivamente comentadas. Porém, não posso deixar de elogiar o projeto gráfico da independente Modelo de Nuvem, lindíssimo. Nem de comentar a semelhança da capa de Três traidores e uns outros com o Olho de Sauron, do filme do Senhor dos Anéis (outras associações a partir daí ficam a cargo dos leitores).

As equipes e o jogo

(Explicação: como ambas as equipes já participaram de diversos jogos, não farei grandes referências ao enredo, que, em ambos os casos, já foi bem resumido por juízes anteriores.)

Comecemos com Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes. Segundo Marcelo Frizon, árbitro de embate anterior do livro, a narrativa “é um belo exemplo daquilo que Adorno explicou ao afirmar que forma literária é experiência social decantada”. Faltou dizer que Backes, doutor em Germanística por Freiburg, parece ter lido Adorno e aplicado no texto literário, junto com outros teóricos (de Linda Hutcheon a Homi Bhabha). Tratando de tradução e encontros interculturais, narrado por um sujeito fragmentado que se associa à figura do próprio autor, também tradutor do alemão e bolsista além-mares, Três traidores e uns outros parece um manual de romance pós-moderno, do tipo que o público leigo tem que pedir ajuda aos universitários para ler a contento.

O fato de um autor ser também leitor de teoria não é necessariamente ruim. De Umberto Eco a John Barth, há bons autores que são também teóricos, assim como há os que teorizam dentro da literatura (Borges) e os teóricos que escrevem literariamente (Barthes). Mas esta é uma equação complicada, que Backes não resolve bem. Para um autor que demonstra certo domínio técnico e que não parece nada ingênuo, fica difícil entender passagens como esta, que parece ter saído de Confissões de adolescente:

Na verdade eu costumava agir assim, transferindo aos outros o dever da escolha e lavando minhas mãos no conforto de mais uma decisão que não precisava ser tomada.” (p. 53)

Também difícil de aguentar é o pastiche de Guimarães Rosa na primeira seção (“O enforcado”). Aliás, Guimarães Rosa na prosa e Leminski na poesia tornaram-se influências que só posso dizer nefastas na produção atual – vide, para o primeiro, alguns contos da recente coletânea Geração Zero-Zero e, para o segundo, os Poemas no ônibus aqui de Porto Alegre. Um exemplo do tom roseano está na passagem seguinte, na qual o narrador desliza entre registros populares e eruditos e onde um destinatário do texto se faz mais presente (à maneira Grande Sertão):

Sabiam se aproveitar, os usurpadores, minha mulher à testa. Como se não tivesse sido minha luta de marido que sustentou sua ociosidade de mulher. Não foi por menos que cheguei a pensar em matá-la, um dia. Ela usou um laranja pra adquirir minha parte depois da separação, e durante muito tempo fizera do lugar um hotel-fazenda, com balneário e tudo, Uruguai pertinho, antes de falir. Não valia mesmo um sabugo, a cadela, e eu aliás deveria evitar uma palavra como testa nesse contexto. A minha doeu, como doeu! Mas as mulheres são assim, e eu só confirmei o que se tornou uma espécie de postulado de humildade pra mim. Sim! Ao fim e ao cabo, eu sempre fui, neste mundo, aquele que menos me decepcionou. E não me venham com nhe-nhe-nhens e presidentes. Ah é, sou melancólico? Sou lido e vivido, e sei muito bem que só um monstro pode se permitir o luxo de ver as coisas como de fato são…” (pp. 29-30)

Peço desculpas pela citação demasiado longa, que prometo ser a última. Na passagem, como num microcosmo do romance, se enfileiram diversos problemas do texto de Backes: o desastrado jogo de palavras com “testa”, a repetição de frases-feitas (que, sei, são do narrador, mas cansam mesmo assim), a misoginia constante (que, mesmo sendo do narrador, é exagerada e cansativa). Nas seções seguintes do texto (de “Outubro dourado” em diante) esses problemas parecem estar menos concentrados e a leitura flui melhor, mas até na penúltima página aparecem imagens duvidosas como “uma linguiça que enchi com a carne vermelha do outrora” (p. 168).

Uma outra característica do livro de Backes, partilhada por seu oponente na partida e por outros participantes do Gauchão, é uma filiação pouco convincente ao gênero romance. No caso de Backes, as quatro seções de seu texto (fora o Epílogo) me parecem mais contos isolados, que acontece de serem narrados pelo mesmo personagem. No caso de História de não acontecer, de Reges Schwaab, o livro inteiro me parece um conto só – ou então um exemplo daquele gênero não muito lembrado, a novela. (O mesmo acontece com as pouco menos de 80 páginas de O gato diz adeus, de Michel Laub, eliminado por Backes no jogo 42 deste Gauchão.)

Passando ao livro de Schwaab, fiquei muito surpreso. De início, me irritou a nomeação meio funcional das personagens (N.A., O Homem, O Velho, A Velha, A Tia). Mas no universo poético do livro isso faz sentido. A escolha do nome do protagonista achei especialmente adequada: N.A., que pode ser Not Available, como lembrou Antônio Xerxenesky em resenha anterior – not available, isto é, quem não está lá – assim como pode ser Nenhum(a) das Anteriores, isto é, o que sobra, o resto da casa.

Não só o nome das personagens é funcional, no entanto, e aqui achei que Schwaab poderia ter localizado um pouco mais o espaço romanesco. Praticamente a única dica que temos quanto a onde a história se passa é o uso de alemão pelo personagem O Velho (o avô), o que me fez pensar em alguma das cidades da colônia alemã do Rio Grande do Sul (ou de Santa Catarina?). Essa generalidade excessiva é um problema que Schwaab compartilha com vários dos novos escritores brasileiros, que parecem tentar uma espécie de universalidade ad hoc ao fazer uma história que se passa em qualquer lugar, em qualquer tempo. Mas acho que Schwaab tem talento suficiente para não precisar disso: umas referências históricas e espaciais aqui e ali, ou mesmo um nome completo para algum ou outro personagem, ajudariam na concretude do texto sem que este perca seu caráter onírico.

Além dessa questão da generalidade, falta limar um pouco algumas frases do texto. O poético, algumas vezes, pode escorregar no clichê. Além disso, seria o caso de cortar, numa segunda edição, a totalidade da página 77 (intitulada “Ficção”). O que está ali explica em excesso o restante, de maneira desnecessária, e faz perder um pouco da graça. O livro funciona melhor sem explicação, num universo circular e onírico reminiscente da Clarice Lispector de Água viva.

Comparando os dois livros de maneira rápida, dou a vitória a Schwaab. Nenhum dos dois livros é isento de problemas. Schwaab, porém, desponta nesse seu primeiro livro (romance? novela? conto?) como uma possível figura importante no nosso cenário intelectual. Seu livro, apesar dos problemas, me faz ter vontade de ler suas próximas e, tenho certeza, melhores, obras.

PLACAR
História de não acontecer 1 x 0 Três traidores e uns outros

VENCEDOR
História de não acontecer, de Reges Schwaab

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Semifinalista 4: Sinuca embaixo d’água

Carol Bensimon tem sido reconhecida como um dos jovens talentos da literatura brasileira. Levantou a taça da primeira edição do Gauchão com seu Pó de parede. Com o Sinuca, tem repetido o desempenho e chega à semifinal após triunfar em um grupo dificílimo. Agora, entrará em campo para um grande desafio: desbancar João Gilberto Noll.

Confira a campanha e tudo que foi dito sobre o Sinuca embaixo d’água até agora:

12/9 - JOGO 21 - Sinuca embaixo d’água 3 x 1 Mohamed, o latoeiro
Juiz: Elisa Viali

É daqueles livros para sair rabiscando de cabo a rabo; não por encontrar errinhos de gramática, mas por querer sublinhar trechos na esperança de assim conseguir guardá-los durante mais tempo na memória”.

31/10 - JOGO 35 - Sinuca embaixo d’água 2 x 1 Os Getka
Juiz: Cinthya Verri

Carol derrama firmeza nas frases curtas e bem pontuadas”.

28/11 - JOGO 46 - Unhas 1 x 3 Sinuca embaixo d’água
Juiz: Fabio S. Cardoso

Sinuca embaixo d’água se estabelece com uma prosa que atende, para o bem e para o mal, às expectativas do leitor contemporâneo”.

2/12 - JOGO 48 - Sinuca embaixo d’água 3 x 0 O centésimo em Roma
Juiz: Kelvin Falcão Klein

Os melhores pontos de Sinuca: a concisão, a montagem da narrativa a partir de imagens densamente capturadas, o trato exaustivo com a linguagem”.

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Semifinalista 3: Anjo das ondas

João Gilberto Noll tem sido figurinha carimbada em premiações gaúchas. Em dois dos últimos três anos, faturou o Prêmio Açorianos, inclusive com o livro que está em campo aqui. No Gauchão, vem mantendo o bom desempenho e coleciona vitórias – embora ainda não tenha empolgado. Agora, na semifinal, terá pela frente um adversário de respeito: a atual campeã.

Confira a campanha e tudo que foi dito sobre o Anjo das ondas até agora:

15/8 - JOGO 13 - Anjo das ondas 2 x 1 O império bandido
Juiz: João Kowacs Castro

As frases são belamente desenhadas e a narrativa é livre, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa”.

17/10 - JOGO 31 - Anjo das ondas 2 x 1 Os famosos e os duendes da morte
Juiz: Tatiana Tavares

A linguagem fluída de Noll leva o leitor de uma página a outra”.

21/11 - JOGO 43 - Anjo das ondas 2 x 1 Todos morrem no fim
Juíza: Marianne Scholze

Rito de passagem, romance de formação, tudo isso se encaixa ao romance e é como você, leitor contumaz, está imaginando – só que diferente”.

23/11 - JOGO 44 - Suíte dama da noite 1 x 3 Anjo das ondas
Juiz: Rodolfo Viana

Noll acerta a mão ao não tentar explicar o rito de passagem, mas sim a apresentá-lo tal como é: confuso”.

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Semifinalista 2: Três traidores e uns outros

O livro de Marcelo Backes desde o início mostrou que tinha força para chegar entre os primeiros. Após a golear no primeiro jogo, passou a enfrentar adversários com trajetórias em importantes premiações. O time chega à semifinal após desbancar Sanga Menor (finalista do Prêmio São Paulo), Bolero de Ravel (semifinalista do Prêmio Portugal Telecom) e O gato diz adeus (semifinalista do Prêmio Portugal Telecom). Agora, o adversário é a revelação do campeonato.

Confira a campanha e tudo que foi dito sobre o Três traidores e uns outros até agora:

8/8 - JOGO 11 - Três traidores e uns outros 5 x 0 Curva de Gauss – A sedução da matemática
Juiz: Bruno Mattos

O jogo de confusão entre ficção e realidade funciona tão bem que obriga o leitor ao esforço de separar (até onde der) o que pode ou não ser verdade”.

13/10 - JOGO 30 - Três traidores e uns outros 2 x 1 Sanga Menor
Juiz: Marcelo Frizon

Sua narrativa é um belo exemplo daquilo que Adorno explicou ao afirmar que forma literária é experiência social decantada”.

16/11 - JOGO 41 - Três traidores e uns outros 2 x 1 Bolero de Ravel
Juíza: Carmen Silveira

Todo o texto de Backes está eivado de lances bem humorados, cômicos, que contrabalançam as perdas e dores sofridas pelo narrador”.

18/11 - JOGO 42 - O gato diz adeus 3 x 4 Três traidores e uns outros
Juiz: Carlos Henrique Schroeder

Embora o narrador alegue que o ambiente não o influencia, o grande mérito do livro está nessa brincadeira, a multiplicidade do narrador perante seu ambiente”.

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Semifinalista 1: História de não acontecer

A maior surpresa do Gauchão vem com assinatura de Reges Schwaab. Depois de vitórias magras nas duas primeiras eliminatórias, o time caiu na chave com um dos favoritos do torneio, o livro de Luis Fernando Verissimo, que vinha goleando os adversários. Uma vitória nesse jogo foi o suficiente para colocar o História entre os destaques do campeonato. Agora, o desafio é a semifinal.

Confira a campanha e tudo que foi dito sobre o História de não acontecer até agora:

21/7 - JOGO 6 - A volta 0 x 1 História de não acontecer
Juíza: Lolita Beretta

Cada frase, cada capítulo foi aparado por um estilete afiado até que se manteve apenas o essencial”.

3/10 - JOGO 27 - Dois passos antes da esquina 2 x 2 História de não acontecer
Juiz: Antônio Xerxenesky

O livro força o leitor a tentar se orientar por um labirinto de metáforas recorrentes (a espiral, o caracol) para dar sentido à história”.

9/11 - JOGO 38 - História de não acontecer 3 x 2 Os espiões
Juiz: Felippe Cordeiro

É preciso estar atento a cada parágrafo para aproveitar a experiência de ler essa obra”.

11/11 - JOGO 39 - A misteriosa morte de Miguela de Alcazar 2 x 4 História de não acontecer
Juiz: Daniel Weller

Há instantâneos flagrados com muita beleza, que constituem um somatório de eventos de uma vida não acontecida”.

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Semifinais do Gauchão de Literatura

Na sexta-feira, com a publicação do jogo 48, ficou definido o quarto e último semifinalista do Gauchão de Literatura 2011. Sinuca embaixo d’água se junta a Anjo das ondas, Três traidores e uns outros e História de não acontecer.

Aproveitando que os comentaristas voltaram aos jogos, faremos uma pausa de uma semana para repercutir os quatro livros que seguem na disputa. Assim, o calendário de publicação dos jogos da semifinal será:

JOGO 49 – Dia 12 de dezembro (segunda-feira), às 10h
História de não acontecer x Três traidores e uns outros

JOGO 50 – Dia 15 de dezembro (quinta-feira), às 10h
Anjo das ondas x Sinuca embaixo d’água

E a grande final, com os dois livros que passarem dessa fase, acontece no dia 19 de dezembro (segunda-feira), às 10h. Fique ligado. Ao longo dessa semana, publicaremos mais textos.

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JOGO 48 – Sinuca embaixo d’água x O centésimo em Roma

JOGO 48

Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras / 2009)
x
O centésimo em Roma,
de Max Mallmann (Rocco / 2010)

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JUIZ
Kelvin Falcão Klein – Mestre em Literatura Comparada, faz Doutorado em Teoria Literária. Mora em Florianópolis. Autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem). Acompanhado também do endereço do blog: www.falcaoklein.blogspot.com

O jogo

O centésimo em Roma é aquele tipo de time com camisetas padronizadas: escolheram um modelo na Ughini e mandaram gravar os nomes nas costas. O centroavante, aquele sujeito de barriga um pouco proeminente, fez questão de ficar com a 9: só jogo com a nove, ele diz, e os outros riem, porque é no condomínio do gordinho que eles jogam de vez em quando. Eles chegam falando alto, fazendo alongamento, puxando o meião.

Sinuca embaixo d’água é aquele tipo de time quase improvisado: a coisa mais próxima de um uniforme é uma combinação prévia do tipo: “Todo mundo de camiseta branca, tá?” – ou preta; e se alguém esquece e vai de verde, digamos, o time pode simplesmente virar o time-sem-camisa. É um time perfil baixo – um dos jogadores inclusive foi direto do trabalho e joga de calça jeans arremangada. Não há um gordinho centralizador: há coesão e, principalmente, gentileza no trato com a redonda. 

O jogo, afinal, mostra que as aparências enganam. 

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Lendo O centésimo em Roma, entendemos porque Borges não gostava de longos romances: se a ideia é boa, um conto basta (um conto inclusive potencializa a ideia, deixando-a densa, plena de possibilidades); se a ideia não é boa, além de já ter sido pisada e repisada ao longo de séculos e séculos de Literatura Ocidental, por que levá-la mais uma vez adiante em um romance moroso e entediante? 

Em seu texto sobre o escritor argentino e a tradição, Borges fala que o autor do Corão, seguro de sua condição de árabe (sequer questionando a verossimilhança de sua condição de árabe), não menciona uma única vez sequer a palavra camelo. Grosso modo, a legitimidade do Corão está em sua feição enviesada, oblíqua: o camelo está ausente não por ser banal aos árabes (o Corão quer ultrapassar os tempos, quer ultrapassar os povos), mas por ser esteticamente desnecessário, e mais: por ser esteticamente perigoso, podendo dar uma dimensão postiça a um texto que se pretende eterno. 

O centésimo em Roma está cheio de camelos, camelos por todos os lados, muitos camelos a cada página. É um livro tão ensimesmado em sua pesquisa, em seu levantamento de bibliografia e dados factuais, que se torna claustrofóbico. Falta à história um ponto de contraste, uma ancoragem, um percurso definido em meio ao universo completamente alienígena do Império Romano. Como naquela passagem do filme de Scorsese: Howard Hughes acabou de filmar a primeira sequência com os aviões no ar – uma batalha aérea, muitos aviões, rios de dinheiro – e, ao ver o resultado, se dá conta de uma coisa: como não há contraste, como não existe um ponto fixo que ofereça a noção de movimento aos aviões que estão de fato se movendo, tudo parece de mentira, tudo parece de plástico, e de nada valeu gastar tudo que gastou, porque ficou idêntico a tudo que foi feito antes. 

Para efeito de placar, digamos que foi um gol contra: Sinuca, 1; Centésimo, 0. 

Inúmeros trechos de O centésimo em Roma contêm um humor semelhante ao de Luis Fernando Verissimo em seus melhores dias – um texto em especial, “Palavreado”, que está no clássico O analista de Bagé. “Palavreado” apresenta três breves cenas; a primeira é, de longe, a mais hilária: não posso ver a palavra “lascívia”, escreve LFV, sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. 

A graça, portanto, está no uso deslocado dos significantes, que não combinam com os significados que o leitor tem em mente (é uma aposta arriscada e, por que não, vanguardista de LFV: o efeito do procedimento depende inteiramente da capacidade de um leitor que nunca está dado). Lascívia tem “um olhar cheio de betume e cabriolé”. Leva seu amante até “uma prótese entreaberta”, depois de subir por um “escrutínio” e percorrer “um longo conluio”. 

O centésimo em Roma, não obstante sua volumosa seriedade, faz uso do mesmo procedimento – um humor involuntário que deixou a passagem das páginas um pouco menos penosa para o Crítico. Vemos um gladiador, vemos suas armas, e, na cena seguinte, ele “destroça o jarro com o gume do gládio” (p. 88). E, na cena seguinte, alguém “tem ao menos uma vantagem sobre o fugitivo: cravos na sola das cáligas” (p. 89). 

Ou ainda: “Dolens aferra a mão no cabo do gládio e perscruta ansioso a névoa” (p. 205). Ou coisas engraçadas num sentido mais amplo, como: “Um médico, porra!” (p. 155), ou “Não voltou para casa. Não se apresentou no quartel. ‘Estou fodido’, ele pensa e se vira de lado, disposto a dormir mais um pouco” (p. 242). E a última: “Sabe que ensinei Turpis a dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’? Mostre a ele, Turpis. – Por favor, vá se foder. Obrigado – Turpis recita”. (p. 325). 

Mais um gol contra: Sinuca, 2; Centésimo, 0. 

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Sinuca embaixo d’água recebe, portanto, uma imensa ajuda de seu próprio adversário. A construção enfadonha e pretensiosa de O centésimo em Roma é eficiente em sua improvisada tarefa de ressaltar os melhores pontos de Sinuca: a concisão, a montagem da narrativa a partir de imagens densamente capturadas, o trato exaustivo com a linguagem. 

Há um parágrafo, já quase no fim do livro, que aglutina esses elementos de forma exemplar: é a primeira e única aparição de Lucas, uma criança que entra na história pelo simples acaso de morar em frente ao local do acidente (o acidente de carro que mata Antônia, a protagonista ausente). É o último parágrafo, o acidente já aconteceu, todos estão chocados e Lucas fala de sua mãe: 

Foi só depois disso que minha mãe olhou para mim. Ela veio e pegou a minha cabeça como se fosse tirá-la do lugar, e eu fiquei feliz e infeliz tudo ao mesmo tempo, ainda mais quando passou os braços pelo meu pescoço e me esganava quase e, sem nenhuma vergonha daquela gente ali na nossa sala, ela começou a soluçar. As lágrimas dela molhavam a minha bochecha, era bem incômodo, mas eu não tinha saída. E assim ela ficou um tempo, me sufocando e dizendo Ai, meu filho, Que coisa horrível, mas ela não esperava que eu respondesse nem nada, e continuava Ai, meu filho, Ai, meu filho, quando Paulo resolveu abrir a boca e disse O que será que foi a última coisa que ela pensou? E acho que isso foi bastante terrível para todos nós. (p. 100). 

Muita coisa acontece aqui. Há, sem dúvida, a força da imagem: diante de uma tragédia, diante da morte de uma menina desconhecida (Antônia não tinha nem 20 anos), destroçada nas ferragens de um carro, a mãe volta-se instintivamente para seu filho, poderia ter sido ele, ou ainda, Deus, jamais permita que algo assim aconteça ao meu filho, etc. 

Há uma liberdade na pontuação, uma liberdade na sintaxe; há, em última instância, uma consciência da maleabilidade dos significantes (e não um uso risível e ingênuo deles, como em O centésimo em Roma). A literatura, se serve para alguma coisa, serve para contar a história da linguagem – não é a linguagem que serve para contar uma história, qualquer que seja essa história. E assim ela ficou um tempo, me sufocando e dizendo Ai, meu filho, Que coisa horrível, mas ela não esperava que eu respondesse nem nada, e continuava Ai, meu filho, Ai, meu filho. 

Essa ourivesaria da linguagem abre a literatura para sua arbitrariedade: esse parágrafo de Sinuca consegue, simultaneamente, suspender a descrença e escancarar seu mecanismo. E isso está posto no jogo mesmo da linguagem: a mesma liberdade que garante sua efetividade como história (e eu fiquei feliz e infeliz tudo ao mesmo tempo) permite, também, que o Crítico observe sua construção metódica, sua musicalidade, e toda a reverberação de textos anteriores, esteticamente fortes, que ocupam as camadas mais profundas de Sinuca. 

Seria preciso dar um gol a cada vez que Sinuca embaixo d’água oferece um parágrafo como esse – não são muitos, mas são o suficiente. Mas paro por aqui e encerro a partida: Sinuca, 3; Centésimo, 0.

PLACAR
Sinuca embaixo d’água 3 x 0 O centésimo em Roma

VENCEDOR
Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon

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